26 de agosto de 2015

Dos sotaques

Há de haver estudos a respeito do sotaque como um fetiche. Com agrado participaria de algum deles. Um primeiro encantamento por alguém, muitas vezes, resvala pelos ouvidos. E a verdade é que o modo de falar influencia o jeito de ser: uma pessoa geralmente sorri e movimenta as mãos e os braços com o mesmo sotaque que põe nas sílabas. De repente, sem ver, estamos envoltos por uma graça imprevista, por um gingado de fala que nos encanta — já é impossível se desvencilhar. Ao mesmo tempo, há que se refletir sobre um fato curioso. Um mesmo sotaque que, num caso, atrai, noutro acaba irritando. A porta de entrada da empatia é a mesma da exasperação. De fato, os tipos humanos irritantes e esnobes realçam seus atributos no exagero da fala. Talvez esteja aí algum preconceito, mas apresento provas. Vejamos por exemplo um paulistano hipster de elite, dizendo “Perdizes”, “Vila Madalena”, “manifestação”. Não há quem tolere. O mesmo vale para um mineiro playboy, ou seja, um anti-mineiro: Aécio Neves. Intragável! Noutros casos, a situação é mais complexa. Ouvir o dialeto gaúcho costuma ser gostoso, porém, entre eles, incomodam os tagarelas. A insistência nas interjeições nasaladas, entremeando frases, ãããããããã, atordoa. Não se deve reclamar, por isso, de que um gaúcho se cale; afora o alívio, quietos eles olham mais fundo, num raro caso em que o sotaque, que é o tempero da fala, se estende para os olhos. Fitá-los assim — bah! — não é para os fracos. Comumente somos vistos como tatibitates, pois é impossível sustentar o confronto; apenas inclinamos a cabeça, distraímos os olhos e improvisamos, enfim, algum assunto, na esperança de que a melodia da voz gaúcha volte à tona e nos redima. Mais facilmente decifráveis são os cariocas, que até na dicção preservam a vida malandra. “Biscoito”, “merda”, “douze”, “quatorze” — são uns desleixados os do Rio, embora exista qualquer coisa que os torne galantes. O mistério talvez se esconda no chiadinho do “s”, na tonalidade da pele, no arranjo dos ombros. Os cariocas (e seu sotaque) merecem os elogios de Adriana Calcanhotto.

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