5 de julho de 2015

Excelentíssimas autoridades

Criar confusões de prosódia e profusão de paródias — uma tarefa que nos deu Caetano. Misturar os sons, as palavras, distrai a cabeça. Mais que isso, instiga. Frequentemente, traz efeito cômico. Me lembro do dia em que, à espera de uma reunião, abri um jornal uspiano. A manchete estampava a pergunta retórica: “Terá Zago cruzado o rubicão?”. E a frase jamais saiu de minha cabeça... Quem terá tido a alegria de formulá-la? Terá Zago Cruzado o Rubicão? — repita essa frase! É um primor! Como não imaginar, a partir dela, o nome completo de alguém importante? De uma autoridade...? Junte o primeiro verbo com o nome próprio, que vem em seguida, e retire a interrogação do final: “Terazago Cruzado Rubicão” — assim fica. Evidentemente, é um deputado. Da época da constituinte de 1988, acomodado até hoje. Dono de terras, corrupto, conservador. Gaúcho incorrigível. E inegavelmente portador de um nome ilustríssimo! Terá Zago cruzado o rubicão? é, ainda, segundo especialista, quase um decassílabo... Mas é sobretudo o nome de um deputado: o Deputado Terazago. Feliz o professor da USP que escreveu essa manchete num despretensioso jornal sindical.

E certo é que ninguém legisla sozinho. Sobretudo, ninguém é canalha, corrupto e latifundiário, sozinho. As terras podem ser vastas, mas os donos se encontram (no parlamento). E eis que o deputado Terazago — gaúcho, católico, dono, além de terras, de um invejável bigode — ganha um colega: o deputado nordestino Setavino Mibuscar. Família de coronéis, dono de rádios e jornais, trabalho escravo etc.. Todas as credenciais. Setavino Mibuscar nasceu, além do latifúndio, de uma frase que há tempos eu ouvia de uma criança, direcionada a um seu conhecido: “Você está vindo me buscar?”. É claro, não desse modo falada, mas deste: “Cê tá vino me buscar?!” — com a energia impaciente das crianças. E pronto. Terazago Cruzado Rubicão e Setavino Mibuscar. Dupla distintíssima. Base do governo Dilma — e fanáticos do impeachment. Contra a corrupção — e dois filhotinhos dela. Para eles, um pouco que tanto faz como tanto fez... Tiveram um grande encontro no dia da redução da maioridade penal. Ambos favoráveis a ela. Tomei nota de algumas das cenas:



“Com a palavra, o nobre deputado Terazago Cruzado Rubicão” — e um velho se move vagarosamente do plenário em direção à tribuna. Deputado Terazago: setenta e três anos, um metro e sessenta e nove centímetros de altura, noventa e três quilos. “Excelentíssimo Presidente, Excelentíssimos Deputados, Cidadãos que nos ouvem de casa” — e segura com altivez o microfone fino que se ergue à sua frente. No anelar esquerdo, a circunferência de ouro. Deputado Terazago: cinquenta e quatro anos de casamento, cento e oitenta e dois hectares de terra, dois milhões, trezentos e vinte e quatro mil e trinta e seis reais em doações eleitorais. “O que se discute nesta casa hoje determina o futuro do país!” — dedo em riste, olhar aguçado como o de quem vê latifúndio. Terazago Cruzado Rubicão: sete CPIs, seis mandatos, quatro partidos, vinte e cinco cargos de confiança. “O povo de bem não aguenta mais!” — e agita o bigode branco, como tarântula albina. Excelentíssimo Deputado Terazago: dois casos de pedofilia, dezenove de capangagem, sete de grilo. “E os que não concordam, que levem os bandidos para casa!” — encerra, descendo do púlpito. 

II 

“O problema, Deputado Setavino, é mais embaixo!” — e aponta o dedo para o chão, como quem aponta uma pistola. Os velhos discursos inflamados do Deputado Terazago... Ali embaixo, ouve-o com atenção o nobre Deputado Setavino Mibuscar: um metro e cinquenta e sete centímetros de altura, sessenta e cinco quilos, cabelinho ralo escovado pra direita. “O problema é estrutural...!” — dá sequência ao raciocínio, enquanto Setavino faz gesto de bater palmas no ar, majestosamente. “O problema é a educação...” — e tremelica as pálpebras, dramatiza o final em “ão”. “O problema é a corrupção...!” — e arregala os olhos. “O problema...” — rebentam-se as veias do pescoço, perde o raciocínio. Para, respira; com o lenço, enxuga o suor na testa. Sobremaravilhado, Deputado Setavino, dali debaixo, meneia a cabeça, enlevado e ufano. Deputado Setavino Mibuscar: dezoito jornais e quatro rádios no Nordeste, trabalho escravo, seis livros de poesia. “Vossa Excelência me permite um aparte?” — não resistiu. “Quantos forem necessários” — desengasgou Terazago, dali de cima. “Vossa excelência tem o inestimável brio dos que vêm dos pampas!”