19 de janeiro de 2015

Sobre minha avó



para minhas tias, meus tios, e para minha mãe, Regina 


De Inês, que faleceu no domingo, 11, aos 87 anos, vou guardar as melhores lembranças. Minha avó teve uma personalidade expansiva, com a qual aos poucos criei intimidade. Estabeleci com ela uma admiração, que acredito ter sido recíproca, e certa ligação subjetiva que certamente plasmou aspectos do meu jeito de ser. Busquei conviver ao máximo com minha avó. Desde a infância e adolescência, como diz a música do Chico, tentei ajeitar o meu caminho para encostar no dela. Adorava passar na sua casa qualquer dia, de surpresa, ou encontrá-la na piscina do clube. Qualquer ocasião para vê-la, comendo um pão de queijo, tomando um café, indo a um evento, valia a pena. Ficando mais velho, tive menos tempo de encontrá-la, principalmente por conta de minha mudança para São Paulo — ainda que a prioridade zero ao vir para Campinas fosse vê-la, conversar, matar as saudades. Vou sentir muita falta da alegria de reencontrá-la, do abraço ao mesmo tempo carinhoso e breve que ela me dava, como quem logo queria começar a conversar. De fato, aí uma sua identidade: uma conversa solta, bastante espontânea, variável por muitos temas, carregada de peripécias e onomatopeias, fofocas e notícias elogiosas da família. Principalmente, repleta dos temas que ela sabia que agradaria a cada um. Sua voz era grossa, especial, seu cabelo era crespo e bonito, e seu feitio era adiposo como convém a uma senhora com vários netos. 

Eu tenho orgulho de ter tido assuntos em comum com minha avó. Como dei a entender acima, nós dois adorávamos pão de queijo, éramos mesmo reconhecidos por isso. Nos anos em que convivemos, organizamos várias fornadas, sempre como pretexto para nos encontrar, às vezes celebrar um aniversário ou outra data. Minha avó comia bastante e éramos, os dois, também fãs de pamonha. Muitas vezes ela me ligava de surpresa, dizia que havia passado na feira, comprado pamonha, e eu estava convidado para ir à sua casa. De imediato, eu abandonava qualquer coisa, e ia correndo para lá. Mais tarde, quando eu mudei para São Paulo, conformou-se aí outra intimidade nossa. Ela tinha um encantamento pela cidade. Me contava de quando, por volta dos vinte anos, havia passado uns dias em São Paulo, para prestar um concurso público na Caixa Econômica Federal. Na cidade grande, pintou o sete: foi para os bailes, transgrediu as regras da pensão em que ficou hospedada, ao retornar após as dez horas da noite. Era tamanha a vida com que me contava essas histórias, que eu era capaz de reconstituir, na cabeça, a São Paulo dos anos 1940: os bondes, os bailes, as figuras obtusas que aparecem nos poemas do Mário de Andrade. E ficava feliz quando o assunto enveredava por aí, pois sabia, que, assim, ela queria se aproximar de mim, de um jeito agradável. 

O concurso para a Caixa Econômica que ela prestou, segundo me dizia, nunca teve pretensão de passar. Mas passou, e com ótimas notas. Ali, trabalhou por toda a vida, além de ter sido por quarenta anos aposentada, o que lhe deu condições para criar, ao lado de meu avô Rafael, cinco filhos, que lhe deram nove netos. 

Entre as coisas simples que a caracterizaram, há outras sobre as quais quero falar. Entre elas, a sua casa, incrustada no coração do bairro do Cambuí, em Campinas, há quase 60 anos. Foi uma casa de avó para ninguém botar defeito: o portão de entrada devia ter 1m70 de altura; por sobre ele, depois de crescido, eu a via se aproximar para receber as visitas; entrando, havia logo um quintal agradável, onde caíam de uma árvore flores que, quando pisadas, faziam “crec-crec”; em seguida, o abrigo, coberto e aberto para o quintal, onde ficavam uns sofás, a rede, a cadeira de balanço e umas decorações antigas, como uma foto em preto e branco de Campinas. Para dentro, toda a alegria da sala, quente a ponto de “assar suspiro no verão”, da cozinha, dos quartos e, entre eles, do seu, um quartão que eu achava o máximo!

Excelentes lembranças tenho de minha avó ali! Só não se encontrava ela em casa quando estava batendo perna por algum programa, ou em janeiro. Neste mês, religiosamente, viajava para Suarão, praia do litoral paulista em que há uma colônia de férias dos funcionários da Caixa. Nada era capaz de demovê-la dessa viagem. Como gostava do mar! E preferia os mares bravos, assustando, depois de velha, seus acompanhantes. Ao entrar na água, buscava logo o rebento das ondas. Gostava da espuma, daquilo tudo batendo nela, que então se jogava, boiava, caía, levava caldo e, de repente, se soerguia, com os cabelos molhados escorridos pela cara, e espirrando água pela boca, para alívio geral dos que a observavam. 

Foi também uma pessoa religiosa, e respeitadora dos outros. Mantinha, como filosofia de vida, certa correção de pensamento e um sentido de justiça que me influenciaram a ser de esquerda. Por décadas, foi petista. Tinha um bom humor inabalável e era muito espirituosa. Nas poucas vezes em que me arrastou para a missa, e já faz tempo, ouvia com riso aberto as troças que com ela eu fazia: “vó, se eu estiver com fome, é liberado comer umas três ou quatro hóstias? Eles disponibilizam requeijão?”. E ela gargalhava ou, no máximo, soltava o mais afável dos xingamentos dos velhos: “ah, seu porqueira!”.  

Com os netos, preparava sempre uma surpresa. Quando éramos pequeninos, uma delas era nos mostrar, abaixando-se, a raiz de seus cabelos, que ela costumava pintar. Ali, bem na raiz (os netos maravilhados), eles eram brancos! Também achava graça em que gostássemos, eu e meus primos, de apertar as fartas pelancas de seus braços, coisa mesmo esculpida por anos e anos de ação da lei da gravidade...

Pelo que até aqui eu disse, fica claro: minha avó foi mineira — de nascença, de sotaque, de conversa, de paladar, de uma afetividade forte e leve, como têm os de Minas. A seu lado, pude me sentir, em várias fases da vida, verdadeiramente desobrigado, na melhor acepção da palavra. À vontade. E muito feliz. Não só na infância, mas também depois, com meus quinze ou dezesseis anos, quando buscava nela um pouco da justificativa de minha personalidade. Mais tarde, distante, morando em São Paulo, segui pensando em minha avó em momentos especiais. Do exemplo dela, extraí muitas vezes coragem, uma vontade boa de acotovelar o mundo, de me abrir às novidades, sabendo sempre que é legítimo aquilo por que se luta. De alguma forma, acho que minha avó rompeu limites do que era ser mulher no tempo em que viveu — ela estudou, trabalhou, viajou, foi ativa e dona de sua vida. 

A perseverança lhe foi uma marca medular. Por catorze anos, lutou contra um câncer que já era avançado quando o descobriu. Mas quem a via não suspeitava. Como o caso de alguns de seus netos, eu, por exemplo, que por anos não soube o que se passava, poupado da notícia pelos meus pais. Por isso, tudo o que me lembro da doença de minha avó foi, uma vez ou outra, ela ter sido operada e, de vez em quando, ela aparecer repentinamente fragilizada do ponto de vista físico. Não foi uma, nem duas vezes, que suspeitei que minha avó poderia estar num caminho sem volta, o que de antemão doía. Mas aí uma grande característica sua: recuperar-se. Incrivelmente, ela sempre dava a volta por cima, e voltava a ser como sempre havia sido, irradiante. Uma fênix. Assegurava ter uma saúde maravilhosa (o que de certo modo nos deixou mal acostumados)... 

Recentemente, sua saúde piorou. Junto com ela, lhe foi indo a memória. Embora não toda, uma parte. Algumas coisas podiam lhe ser repetidas e repetidas, mas não entravam na cabeça. Por exemplo, ligou duas vezes para minha mãe em seu aniversário, dando dois parabéns para a filha no mesmo dia — ambos com a mesma alegria. O manto cinzento do esquecimento embaralhava os seus olhos. Mas, para mim, não fazia mal. Eu tinha vivo na memória o caminho de nossas conversas, e assim que ela puxava um papo, eu adiantava as informações que sabia que ela esqueceria, como o fato de eu já ter me formado e estar no mestrado. “E São Paulo, como é que está?”, ela perguntava, para eu responder: “está ótimo, vó, estou adorando o mestrado!”. E a conversa embalava... Quando ficou mais quieta, pela velhice, fui eu que passei a tomar a iniciativa: “vó, como é mesmo aquela história de quando você foi pra São Paulo pro concurso da Caixa?”, “quando é que nós vamos marcar mais um pão de queijo?”, “estou te esperando lá no meu apartamento...”. O roteiro se repetia e, não obstante, eu adorava, queria explorar para sempre os caminhos que me aproximavam de minha avó. Essas conversas eram tudo o que eu mais sentia falta enquanto estava em São Paulo!   

Uma vez, minha vó se virou para mim e, sem grandiloquência, disse: “Pedro...”, e fez uma pequena pausa, como quem mede o que vai dizer: “eu acho que eu realizei todos os sonhos da minha vida!”. Eu fiquei surpreso! Como pode alguém afirmar uma coisa dessas? Não são os sonhos, os desejos, essas coisas todas, assim como uma boneca russa, em que dentro de uma há sempre outra? Matéria que não se realiza, se multiplica? Mas era aquilo mesmo que ela me dizia, tranquilamente, como se estivesse a comentar uma notícia do jornal. “Que ótimo, vó!”, eu respondi, vibrando com ela. 

Antes da morte da Inês, a única pessoa que eu me lembro de perder foi o Plínio de Arruda Sampaio. Jamais tive ligação íntima com ele, mas nutri, ao lado de uma geração de jovens, grande admiração política. Quando ele morreu, o grupo de juventude de que faço parte, o Juntos!, lhe fez uma bonita homenagem: publicamos na internet uma foto sua, numa grande manifestação de rua. Já velho, ele levava uma flor na mão, como símbolo do enfrentamento à polícia, e no rosto, além da senilidade, podia-se perceber a adrenalina. No topo da foto, escrevemos: dedicamos o futuro de nossas lutas para Plínio de Arruda Sampaio. 

Para minha avó Inês, que amei muito, eu dedico o futuro dos meus sonhos.