23 de novembro de 2014

Minha ex-cabeleireira

Cortar o cabelo é mais do que aparar os pelos que crescem sobre a cabeça. Ao se sentar na cadeira de um salão, ver-se a si próprio e ao cabeleireiro pelo espelho, sempre tem início uma história. Todo bom cortador tem um quê de analista, e outro de narrador do cotidiano. Assim, acabam por nos envolver em cumplicidades. Talvez aí a razão de até mesmo os carecas nunca deixarem de lado o ritual de ir “cortar o cabelo”, ironicamente. 

Assim era com minha antiga cabeleireira, Nilza. Adorava ela. Tinha cerca de 1 metro e 60 de altura, era bastante gorda e falante. A cada tesourada, soltava um comentário. Ninguém passava impune: julgava políticos, parentes, vizinhos e famosos. Com isso, me divertia. Eu mal a escutava — seu tom era de sussurro ao pé do ouvido, e sua voz tinha a rouquidão dos fumantes. Mas gargalhava. Seu defeito era um só: possuir mais presença de espírito do que precisão nas tesouradas. Ao passo que me entretia, Nilza costumava me deixar um deselegante chumaço à frente do pelo, como topete. E incontadas vezes — zangado, por um lado, mas ansioso pelas novas peripécias — voltei ao salão apenas para tal reparo. 

Numa dessas, Nilza havia faltado ao trabalho e conheci outro cabeleireiro. Mais alto, grisalho, de barriga pontuda que vez por outra me roçava o braço, Seu Geraldo me acertou o corte. E se, por um lado, falava menos, em outras características me cativou. Com o tempo, descobri-o um exímio tocador de cavaquinho (aos sábados, deixava de lado os cabelos para trabalhar no samba). E reparei, colado como adesivo sobre sua caixa de ferramentas, em frente ao espelho, o brasão da Ponte Preta, meu time cá no interior. Acabei por me tornar seu cliente e Nilza minha ex-cabeleireira. 

Até aí, tudo bem. Na sociedade de mercado, o melhor serviço é o que se escolhe. O problema está no fato de Seu Geraldo e Nilza trabalharem no mesmo salão, e em cadeiras uma ao lado da outra. Toda vez que agora vou cortar o cabelo, me sobrevém um enorme constrangimento. O que devo dizer à Nilza? Pedir desculpas? Fazer promessas de reatar? Puxar um papo sobre a novela? Sobre os últimos fatos do petrolão? Me sinto exposto sistematicamente à prova de um adultério e me perturba a infidelidade. O mesmo presumo da parte dela. Já mal me olha nos olhos através do espelho, sorri pouco. É como se uma montanha de gelo se erguesse entre as cadeiras de Seu Geraldo e Nilza, quase impossível de ser quebrada. A não ser por uma iniciativa dela própria, é claro, espirituosa mesmo quando traída. Hoje, quando Seu Geraldo se afastou de mim para rapidamente buscar um produto na prateleira, Nilza veio até a cadeira do rival. Aproveitando a oportunidade, aproximou sua boca de meu ouvido, e disse sussurrando: "larga este velho e volta para cá!"

9 de novembro de 2014

Ave-maria

AVE-MARIA 

a pomba agônica deitada no chão 
e o carro-forte passando em cima

as rodas sobre o dorso, ele 
aniquila a ave — estira-a e a abate.