15 de outubro de 2014

Ainda não foi hoje que choveu

AINDA NÃO FOI HOJE QUE CHOVEU
(A. M. Pires Cabral)

I

A chuva anda por longe, entretida
a causar inundações na Indonésia.

A chuva dir-se-ia que por estes lados
deixou de ser possível
e que a morte à míngua de água
traz debaixo de olho a Terra Quente.

II

Hoje acumularam-se umas quantas nuvens
e chegou a parecer que choveria.
As pessoas punham, desassossegadas,
olhos e rogos no céu.

Mas logo o vento mudou
e dispersou a esperança, enxotou-a
como se enxota um velho cão vadio
que vem coçar as pulgas para junto de nós.

III

Um velho de sacho ao ombro
segue cismando em direcção à horta
- lugar onde pertencem os dias que lhe restam -,
cruza-se comigo no caminho.

Com modos que já só a aldeia sabe,
levanta o chapéu e diz com desalento:
ainda não foi hoje que choveu.

E é o seu próprio olhar que vai chovendo
conformação sobre a pesada, opaca
poeira do caminho.