2 de agosto de 2014

A garrafa de água com gás e outros mistérios

Dias atrás, contraí um dos mais inegáveis e avançados hábitos da idade madura. Agora, sou um apreciador de água com gás. Para matar a sede e matar o tempo, em situações agradáveis. Agrada-me o líquido transparente acompanhado de bolinhas estranhas. E o mais inusitado foi a constatação deste gosto. A água com gás, sem dúvida, pertence a uma categoria de coisas que durante muito tempo da vida não nos fazem sentido. Para o paladar de uma criança, possui gosto injustificável. Ao seu olhar, denota estranheza: será um refrigerante transparente? Uma água estragada? E eis que passados uns anos, de um dia para o outro, começa-se a aprová-la, assim como se dão a maior parte das mudanças da vida. 

Na categoria do inacessível às crianças, estão ainda outras bebidas. A cerveja e o café, por exemplo. Uma amarela, outro preto, ambos ruins. Impossível compreender, quando miúdo, a alegria dos velhos assistindo aos jogos de futebol, bebendo. Ainda mais esfíngica, para mim, era a aura matinal de minha casa no momento de ir para a escola: um cheiro de café no ar, e minha mãe em posição quase fetal agarrada a uma xícara quente, esfumaçante, como se a cozinha fosse um esconderijo e na xícara habitasse algum segredo. Eu preferia o todinho e o pão, e aos jogos assistia em companhia da coca-cola. 

É o tempo que desfaz nossas visões. Ou a tudo é que se arranja uma justificativa para nos permitir, a certa altura, gostar de água com gás — claramente uma coisa de velho. O café é social. Liga-se ao que é duro, amargo, liga-se ao trabalho. Mais que grave e exclusivista, como disse Mário Quintana, o café é uma rajada de vida, enquanto a cerveja é um seu caçoar alegre. A água com gás, por sua vez, é um meio termo. O café pela manhã, a cerveja à noite, a água com gás à tarde. E todo mistério da vida se desfaz num insight quando, aos vinte e três anos, rala barba sobre a cara, descanso rápido num café de São Paulo, toma-se um gole pela primeira vez prazeroso da água com bolinhas. Viva a maturidade.