9 de janeiro de 2014

A estranha razão da morte de um cachorro

dedico ao amigo do meu irmão 

Era um cachorro muito tranquilo e de hábitos normais. Não lhe faltavam família e carinho. Vivia num quintal amplo, onde podia comer, correr, caçar formigas e desempenhar atividades lúdicas e fisiológicas. Ao final da tarde, apreciava passear pela calçada em frente à sua casa. Recebia então elogios da vizinhança: da adolescente que passava, da senhora com sacolas nas mãos, da mãe com bebê de colo, apontando para ele. Era o protótipo de um cachorro manso e afável. 

Talvez por isso tenha causado tamanha estranheza a razão de sua morte. Doca — era seu nome — tinha então cinco anos. Era do tipo salsichinha, uma verdadeira graça: esbanjava saúde, sucesso, passeios e latidos. Talvez até cruzasse dali a uns meses. Mas tudo se esvaiu numa tarde de bastante calor. Naquele dia, quando Doca foi folgar na calçada, só o que se viu foi um único grande caminhão, trambolhento e sujo, passar por ele. Passou assim voando — vrum! Uma coisa horrível, poeirenta e de muito barulho. E Doca se estatelou no chão da calçada, morto. Será que morreu de desgosto, coisa feia, poluição? Antes de achar razões (pois atropelo não havia sido), todos buscaram ainda salvá-lo: chamaram o veterinário, sussurraram no ouvido seu apelido predileto, acenderam velas, mas nada: estava morto, morto de tudo. 

Que mistério! Do que haveria sido? Um cachorro assim tão tranquilo, amável. Ali passou um caminhão, bruto, é verdade, mas inofensivo a quem vai pela calçada, numa tarde comum... E Doca cai de morto? Virado de lado, duro, as patinhas rijas, o pêlo teso, só o pingulim desfalecido? Nunca padecera de doenças crônicas! Alimentava-se bem. Fartava-se de afeto, caminhava regularmente, não saía ao sol nos momentos de pico... Era mesmo um mistério. Mistério que só foi resolvido pelos veterinários, é claro. Passado o pranto, colocaram o cachorro numa maca e levaram ao hospital: autópsia. Reviraram todinho o Doca, mexeram e remexeram de cima a baixo, até chegar ao coração. E este inspecionaram. O veterinário, então, se estarreceu — um caso inédito! A família se afligiu toda. Na vizinhança, duvidaram. Mas fato é que, naquela tarde de verão, o caminhão que passou pela rua deu um susto muito forte em Doca, na calçada. Algo assim abrupto, fulminante, inapelável. De muito impacto. Muitos ainda juram não ser possível, mas Doca morreu de enfarto.

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