19 de janeiro de 2014

Caetano, Um comunista



A miscigenação entre um italiano, imigrante do início do século vinte, e uma negra de origem haussá; a alfabetização por meio da leitura do mundo e a sensibilidade de enxergar para além do que se coloca na superfície; a estatura elevada e a origem baiana. Assim Caetano Veloso, em Um comunista, define o nascimento de Carlos Marighella. Mais do que isso, assim define o nascimento de “um comunista”. A homenagem de Caetano, em seu novo disco, Abraçaço, pode ser estendida a todos aqueles que, ao longo da história, tombaram na luta por um mundo justo.

No início da canção, além de apresentar o nascimento do guerrilheiro, Caetano narra a trajetória de seu assassinato, localizando ditadura militar e Guerra Fria. E é no final dessa primeira estrofe que aparece pela primeira vez o refrão de Um comunista, de maneira forte, como num suspiro em meio à marcha lenta em que se canta a música:

Os comunistas guardavam o sonho 
Os comunistas, os comunistas. 

A força do refrão se localiza no sentido atual da luta pelo “sonho”, ainda que a conjugação do verbo se dê no passado — guardavam o sonho.

Assim segue Caetano. Ao narrar a trajetória de perseguição a Marighella, passando por Vargas, Magalhães e pela ditadura civil-militar, o compositor destaca uma das principais características dos comunistas: a perseverança, racional e subjetiva, na luta. Para Caetano, não compõe novidade a perseguição “nas minúcias das pistas” daquele que foi o “minimanual do guerrilheiro urbano”. Representando um perigo para o status quo, o cerceamento da liberdade é tratado como algo intrínseco à vida dos comunistas. Os versos que encerram o trecho da música de que falo apresentam a seriedade das afirmações quase óbvias, inexoráveis e, por isso, impactantes:

O mulato baiano 
O minimanual 
Do guerrilheiro urbano 
Que foi preso por Vargas 
Depois por Magalhães 
Por fim, pelos milicos 
Sempre foi perseguido 
Nas minúcias das pistas 
Como são os comunistas. 

Caetano começa, então, a apresentar um pouco de sua reflexão própria. Na terceira estrofe, ganha destaque a narrativa de um episódio, acerca do assassinato do guerrilheiro, do qual participou o compositor. Em 1969, no exílio em Londres, junto com Gilberto Gil, Caetano posou para fotografia de capa de uma revista brasileira, editada pela Bloch. Sem saber, entretanto, foi estampado na mesma página em que se publicava uma foto de Marighella, no topo, noticiando sua morte. Sensibilizado e solidário ao guerrilheiro, que desde então admirava, escreveu um artigo para O Pasquim, no qual afirmou que Caetano Veloso e Gilberto Gil é que “estavam mortos”. “Ele”, Marighella, “está mais vivo do que nós”. A utopia faz o fio de ligação entre a morte e a vida no final desse trecho da música:

O baiano morreu 
Eu estava no exílio 
E mandei um recado 
Que eu que tinha morrido 
E que ele estava vivo 
Mas ninguém entendia. 
Vida sem utopia 
Não entendo que exista: 
Assim fala um comunista. 

Na sequência, o compositor dá início a uma leitura pessimista a respeito da “raça humana”. Para ele, a reflexão sobre o comunismo se dá nesse marco. Não se enxerga propriamente o conflito e a luta de classes. O que está em jogo é a humanidade, em abstrato. Sobretudo, nela, a situação de homens, que são iguais, mas não conseguem conviver, fato que angustia o compositor (“Há um abismo entre homens/ E homens, o horror!”). Nesse momento, no entanto, ele deixa de lado provisoriamente a reflexão pessimista (que será retomada na estrofe seguinte), para apresentar uma reverência ao guerrilheiro Marighella, numa das mais belas passagens da canção:

Porém a raça humana 
Segue trágica sempre 
Indecodificável 
Tédio, horror, maravilha. 
Ó mulato baiano 
O samba o reverencia 
Muito embora não creia 
Em violência e guerrilha 
(Tédio, horror e maravilha). 

“Tédio, horror e maravilha”, a tríade contraditória que se apresenta por três vezes na música, nesse momento aparece entre parêntesis. Cantando o verso, Caetano embarga ligeiramente a voz. E, rouco, abre a última estrofe da canção:

Calçadões encardidos 
Multidões apodrecem 
Há um abismo entre homens 
E homens, o horror! 

Pintado o cenário turvo, retoma a condição plena da voz e conduz a canção para um questionamento final, metaforizando sua ideia de humanidade por meio da Terra:

Quem e como fará 
Com que a Terra se acenda 
E desate seus nós 
Discutindo-se clara 

Para, em dois versos de sonoridade encantadora (“Iemanjá, Maria, Iara/ Iansã, Cadija, Sara“), evocar, enfim, o caráter místico da claridade terrestre que almeja: a superação do “abismo entre homens e homens”, o fim dos “vãos interesses de poder e dinheiro”, o predomínio da vida com utopia e, sem dúvidas, a supremacia da maravilha. É digno de nota o fato destes dois versos virem à tona no igual momento melódico em que, nas demais estrofes, Caetano apresenta definições a respeito dos comunistas — “assim nasce um comunista”, “como são os comunistas”, “assim fala um comunista”.

Após o ápice da música, por fim o compositor retoma brevemente a biografia de Marighella, descrevendo suas diferenças com Moscou e destacando, entre suas características, certamente aquelas que nele mais admirava, com a ótica do artista: a “luta romântica” e a irreverência. A peleja, segundo o compositor, esculpida contraditoriamente na “luz” e na treva”, na maravilha, no tédio e no horror.

Um comunista é encerrada, então, com 9 repetições de refrão, ao longo de 1 minuto e 40 segundos. Como numa prolongada distensão, num profundo suspiro. Tempo indispensável para que se processe todo significado da mais bela canção de Caetano no disco Abraçaço, conduzida em marcha lenta por mais de 8 minutos.

No disco Zii e Zie, de 2009, Caetano apresentou A Base de Guantánamo, igualmente uma canção de protesto. Comparando-a com Um comunista, A Base de Guantánamo não apresenta metade da beleza e da construção poética presente na canção do mais recente disco do compositor — embora Zii e Zie seja melhor do que Abraçaço. Um comunista transcende em termos de significado. Principalmente para aqueles que, ainda hoje, lutam, e levam adiante a luz e a treva da poesia e do embate entre classes. Para aqueles que, inspirando-se nos que guardaram, guardam o sonho.


Publicado originalmente em pelastabelas.juntos.org.br em 12/03/13

9 de janeiro de 2014

A estranha razão da morte de um cachorro

dedico ao amigo do meu irmão 

Era um cachorro muito tranquilo e de hábitos normais. Não lhe faltavam família e carinho. Vivia num quintal amplo, onde podia comer, correr, caçar formigas e desempenhar atividades lúdicas e fisiológicas. Ao final da tarde, apreciava passear pela calçada em frente à sua casa. Recebia então elogios da vizinhança: da adolescente que passava, da senhora com sacolas nas mãos, da mãe com bebê de colo, apontando para ele. Era o protótipo de um cachorro manso e afável. 

Talvez por isso tenha causado tamanha estranheza a razão de sua morte. Doca — era seu nome — tinha então cinco anos. Era do tipo salsichinha, uma verdadeira graça: esbanjava saúde, sucesso, passeios e latidos. Talvez até cruzasse dali a uns meses. Mas tudo se esvaiu numa tarde de bastante calor. Naquele dia, quando Doca foi folgar na calçada, só o que se viu foi um único grande caminhão, trambolhento e sujo, passar por ele. Passou assim voando — vrum! Uma coisa horrível, poeirenta e de muito barulho. E Doca se estatelou no chão da calçada, morto. Será que morreu de desgosto, coisa feia, poluição? Antes de achar razões (pois atropelo não havia sido), todos buscaram ainda salvá-lo: chamaram o veterinário, sussurraram no ouvido seu apelido predileto, acenderam velas, mas nada: estava morto, morto de tudo. 

Que mistério! Do que haveria sido? Um cachorro assim tão tranquilo, amável. Ali passou um caminhão, bruto, é verdade, mas inofensivo a quem vai pela calçada, numa tarde comum... E Doca cai de morto? Virado de lado, duro, as patinhas rijas, o pêlo teso, só o pingulim desfalecido? Nunca padecera de doenças crônicas! Alimentava-se bem. Fartava-se de afeto, caminhava regularmente, não saía ao sol nos momentos de pico... Era mesmo um mistério. Mistério que só foi resolvido pelos veterinários, é claro. Passado o pranto, colocaram o cachorro numa maca e levaram ao hospital: autópsia. Reviraram todinho o Doca, mexeram e remexeram de cima a baixo, até chegar ao coração. E este inspecionaram. O veterinário, então, se estarreceu — um caso inédito! A família se afligiu toda. Na vizinhança, duvidaram. Mas fato é que, naquela tarde de verão, o caminhão que passou pela rua deu um susto muito forte em Doca, na calçada. Algo assim abrupto, fulminante, inapelável. De muito impacto. Muitos ainda juram não ser possível, mas Doca morreu de enfarto.

6 de janeiro de 2014

Elucubrações de férias

Há quem diga que as Pipocas Nhac são o alimento mais viciante do planeta. O segredo é simples. Em meio à sacola vermelho-transparente, a cada 3 pipocas, apenas 1 é a ideal: sequinha, crocante e docinha. As demais são detestáveis. Mas a busca incessante pela boa conduz a uma sucessão interminável de mãozadas. São verdadeiras empreitadas saco de pipoca adentro, tão mais afoitas conforme o mesmo vai se esvaziando. A mão se vê obrigada, então, a vasculhar cada vez maiores profundidades, melando-se inteira, não raro também o punho. E não adianta prometer que será a última mãozada. Lamber os dedos  ao mesmo tempo um prazer e um instinto higiênico  somente os levarão a que se sujem ainda mais na próxima imersão, é inevitável. Tudo o que se deve fazer é seguir comendo, em busca do terço ideal. O finzinho do saco, com as migalhas e o puro açúcar, é perdição completa.

Há quem discorde da informação. Para muitos, a comida mais viciante do universo não são as Pipocas Nhac, mas os biscoitos de polvilho. A cada 3 deles, 3 costumam ser excelentes, e as consequências disso são agonizantes.