5 de setembro de 2013

Crônica tricolor

A cabeça facilmente se esquece das coisas. Quando saí, o jogo estava 0 a 0. Acompanhava pelo placar online e não obtinha grandes novidades. O jogo era fora de casa, difícil; a fase, um tanto quanto tenebrosa. Apenas uma pequena sequência (quatro jogos sem perder) alimentava a esperança, ainda que, dos quatro, três houvessem sido de empate. (Sabe muito bem o leitor que, ao bater o terceiro empate, na prática, iguala-se a pontuação de duas derrotas e uma única, mísera e erma vitória). O futebol às vezes judia da gente. 

O goleiro do São Paulo fechava o gol, tenha-se claro. 

Sentei num bar (e aqui retomo a história do esquecimento fácil). Com a bebida, operei o pensamento seletivo: dei realce às coisas boas e esqueci-me das ruins. A cerveja, libertina e distrativa, é sempre o oposto do café, grave, exclusivista e definitivo, como disse Mário Quintana. Com ela, fui capaz de passear a cabeça: lembrei dos tempos áureos de meu time; bravateei-me em discussões comparativas; resgatei dizeres de um cronista; ouvi falar de epopeias; troquei um ou outro elogio, quando inevitável. E me esqueci do jogo.  

Quando fui atravessar a avenida (dessas que têm duas faixas) para ir embora, veio em minha direção um sujeito. Tarde da noite, era difícil delimitar suas características. Identifiquei apenas os fones de ouvido, talvez de um rádio de pilhas, um ar apressado e a camiseta do São Paulo. Assim, voltei para o eixo. Lembrei-me do jogo. Temi pelo pior. Pensei em voltar. 

Entretanto, refleti: havia de vir da adrenalina das vitórias a celeridade daquele que em minha direção caminhava. Em seu rosto, vi um esgar de sorriso; as bochechas, salientes, contornavam um estado de espírito; e sua barriga estufou o brasão na camiseta — o retrato da confiança. O sujeito, nem adolescente, nem ido de idade, nem alto, nem baixo, era confiável, e a notícia, tendo-a, seria positiva. Com cumplicidade, perguntei: “cara, quanto foi o jogo?”. “1 a 0”, me respondeu. “Para quem?”, retruquei. “Para nós.”

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