2 de novembro de 2012

O perfil de um louco


um passa os dias
chutando postes para ver se acendem

o outro as noites
apagando palavras
contra um papel branco
 (Paulo Leminski)

Para se medir um louco, vários perfis devem ser levados em conta. Principalmente quando se trata de um esquizofrênico. No entanto, não quero adiantar assim, tão logo, a característica determinante do personagem.

Piauí há de ter nascido nos idos de 1950, em alguma cidade do estado que hoje lhe serve de apelido. Tem cerca de 1 metro e 60 de altura e costas levemente acorcundadas. Ele caminha todos os dias pela Universidade de São Paulo, onde leva rente ao corpo uma sacola de pano, veste camisas excêntricas e calças pegadas ao corpo. Seu cabelo, grisalho, crespo e há muito tempo sem corte, é intermitido por dois ou três buracos, como clarões desmatados em meio a uma floresta. Ali, segundo ele, outrora houvera chips. Chips de outros planetas. Perguntar para Piauí de onde vem, ou em que época vive, é matéria de imprecisão histórica e espacial. Diante de uma simples pergunta em relação à sua idade, a resposta é estrambólica: “60 anos-luz”, diz.

Fato que não se questiona é que estudou na Universidade de São Paulo. No prédio de Filosofia e Ciências Sociais, alguns antigos podem reconhecê-lo: aluno assíduo e brilhante, só um pouco fora do bumbo, ali pelos anos 70. De repente, sumiu. Muitos dizem que em razão da ditadura militar, com prisão, tortura e todos os requintes. Outros afirmam que foi por acaso. Vinte anos depois, já louco, voltou, para tornar-se figura folclórica na universidade.

Os anos de estudo hão de lhe ter conferido alguma erudição. Em seus falatórios — Piauí não deixa de falar por um instante sequer — são frequentes as referências a autores da sociologia, filosofia e literatura. E até mesmo a psicanalistas, de maneira tragicômica. Não raro, leva em mãos um livro. Bebe café compulsivamente. Três ou quatro sachês de açúcar é o que usa para adoçar a bebida (metade caindo dentro e metade caindo fora do copo). Caminha muito pelos corredores da USP. Esbraveja, profere frases entrecortadas e gesticula a mão esquerda com rapidez e eloquência. Apresenta-se como um ditador antigo, um ex-guerrilheiro comunista e até mesmo um extraterrestre. Certa vez, distraindo sua cabeça em alguma peripécia bolchevique, foi surpreendido por um aluno da universidade: “Piauí, a União Soviética acabou...”. “Quem disse?! Não acabou!”, respondeu inconformado.

Entre todas, talvez seja a linguagem sua característica mais peculiar. Em seus delírios, Piauí inventa palavras e até mesmo dialetos não existentes. No português, opta sempre por vocábulos de pronúncia enérgica e pelos sinônimos mais chulos dos palavrões que existem. “Vampirovska”, por exemplo, segundo ele, é uma “partícula hematofágica físico-química” — e está explicado. Para Piauí, é trivial tudo aquilo que para os outros seria esdrúxulo. Os normais, ao vê-lo, ficam então absortos, e o louco é como um espelho a distorcer e atestar a lucidez alheia.

Mas imaginem, leitores, a impressão daquele que pela primeira vez encontra Piauí nos corredores da universidade. Foi o caso de Suzana, aplicada estudante de pós-graduação que visitava a USP. Sentada em um banco no saguão do prédio de Filosofia e Ciências Sociais, conheceu Piauí. Andando de um lado para o outro, o louco a assustava. Ela, por isso, comprimia contra o peito o livro que levava em mãos — um Foucault, talvez — e lamentava-se por não ter encontrado em sua visita, como esperado, algum docente consagrado da USP. O louco, não obstante, fixou-se nela. Andando em círculos, subindo e descendo escadas, gritando, rindo, de tempos em tempos detinha o olhar na moça e disparava: “Vampira! Mulher vampira!”. Chegou mesmo a ameaçá-la, prometendo explodir-lhe o cérebro com uma “bomba bucetácea”. Nesse dia, Piauí assegurava ter transformado toda população do Butantã em baratas, que se reproduziriam ao longo de cem anos. A moça, coitada, só o que queria era encontrar um Antonio Candido... E o arremate, ainda por vir, Piauí decretou enfaticamente: “Eu sou leitor do Kafka! Sou platônico!”, disse, para concluir: “E tenho armas!”.   

2 comentários:

José Lima Jr. disse...

Pra variar, belo texto!

Marco A.de Araújo Bueno disse...

Bom, 'psicólogo' e careca, - PQP, do irmão. A propósito do B&B (meio barba-e-bolsa,quem sabe, da época dos movimentos a[r]mados...), um belo pensamento do Foucault (em As Pala vras e as Coisas): "O louco só é o diferente por não atestar a diferença"(...)Tudo são 'semelhanças' e As Semelhanças todas valem por signo. Muito lindo ele defender seu próprio território com 'bomba bucetácea', já que a vampira queria sangue mesmo. Eu, p.ex.,leitor de Kafka e lacaniano das cavernas, nunca mais convido o Antônio Cândido pra dar uma 'vidinha' no lançamento do "Todos os Portais", num sábado às 13:30 deste novembro. Achei-o algo evasivo.Aguardo a presença do nosso Piauí, então. Sentir-se-á bem; bem menos 'acadêmico'.Gostava que o entrevistastes sem qualquer teoria e sem "levar escuta". E sim, o "louco é como um espelho a distorcer a lucidez alheia", a garantia contrafacetada da 'nossa' normalidade