22 de julho de 2012

Três homens na Avenida Paulista

Os que passam lá embaixo — a avó mostrando ao neto um super-herói — não percebem a oscilação. Josué balança calmamente as duas pernas acima da Avenida Paulista, intercalando-as num movimento lúdico. Arremessa tinta à parede. Espalha. Sobe trinta centímetros e espalha, suspenso no ar por um fio. Na avenida, passam o carro do ministro e a filha do banqueiro. A cidade tem trânsito infernal, barulhos de foguetório e ambulância, e uma indiferença que se edifica por todos os lados. Prepara-se agora mesmo um temporal daqueles e Josué, enraivecido, põe as mãos na calça suja. Abre seu botão, puxa a braguilha. Com os pés, empurra sutilmente a parede e faz a cadeira girar em torno do próprio eixo. Mija agora por sobre a cidade de São Paulo. 

II 
Hoje é este que caminha pela Avenida Paulista. Debaixo do paletó, o suor gruda-lhe os pêlos à barriga gorda e as tetas, flácidas, marcam duas linhas simétricas de assadura. É um homem de negócios, de idas e vindas e cafés importados. Antes da separação, dizia à esposa ao término dos atos: "puta na cama e dama na sociedade". Ato-contínuo, dormia. Não distinguia o preço de uma mulher do preço de um whisky. Quando deu a esposa para ser dama na cama e — não raro — puta na sociedade, espezinhou-a e teve de pagar cestas básicas à delegacia da mulher. Passou a fumar compulsivamente. Hoje, caminha pela Avenida Paulista a invejar carros e esconde um olhar promíscuo por detrás dos óculos. Vê viados passando, putas rebolando, senta, afrouxa a gravata e o cinto e solta um arrotinho indiscreto. 

III 
A camisa abre-se em três botões, a exibir os pêlos, e o vento lhe define todo o corpo. Desfila pela cidade um rosto austero, bem formado para os pouco mais de vinte anos. O cabelo é cacheado e a barba é por fazer. As maçãs do rosto dão-lhe um ar sisudo, mas o meio-sorriso reconstitui o equilíbrio e arrasta atrás de si toda uma cidade. Ai, quantas mulheres e quantos homens não param para vê-lo passar! (Repare na senhora do residencial: rega as plantas e inunda-se em calor, refaz a libido. Ou então a mocinha da banca, que arruma os jornais precipitadamente e cora toda a face. E até mesmo os garotos do cursinho, sentados à escada, ardendo.) Passa, e é muito mais homem quando no sentido Consolação. Torna a esquerda, entra num café. Ai, o frio na barriga que atravessa toda a avenida na velocidade do metrô!

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