31 de julho de 2012

Aprendizagem pelo avesso

outono a tarde cai
penso apenas
em minha mãe e meu pai

Yosa Buson (tradução de Paulo Leminski)


PÃO E VINHO
Quinita Ribeiro Sampaio

I

Minha mãe
lavava a roupa no tanque.
Fazia espuma de sabão
com um cabo de vassoura.
(Que nem criança 
ficava olhando arco-íris
nas bolhas.)
Depois
em folha de zinco
quarava sua roupa ao sol.

Meu pai dizia-lhe minha flor.

E eu pensava
— Um dia vou ter um homem assim.


II

Minha mãe me dizia Joaquinita.
Tinha voz de veludo.

No fogão a lenha
fazia a goiabada cascão
no tacho de cobre.
(Sua face esfogueava.)
E em silêncio rezava ladainha
bendizendo o Senhor.

No chuveiro
eu tomava banho frio
com sabonete Eucalol.
E cantava.
Subia nas árvores.
Com os dentes 
descascava manga-espada
agridoce
ainda morna do sol.

Tudo era certo e natural.
Minha mãe estava ali, 
meu pai por perto.

Acreditava 
que ia durar para sempre.


III

Nunca ouvi minha mãe cantar. 
Minha mãe tinha passos silenciosos.

Meu pai
enxertava flor-de-maio
colhia favos de mel
e fazia versos.

Eu cantava you are always in my heart
e ouvia
em ondas curtas
a BBC de Londres.

Não entendia nada.
Mas ficava fascinada.

Um comentário:

Daniel Serrano disse...

Brilhante, brilhante.