31 de julho de 2012

Aprendizagem pelo avesso

outono a tarde cai
penso apenas
em minha mãe e meu pai

Yosa Buson (tradução de Paulo Leminski)


PÃO E VINHO
Quinita Ribeiro Sampaio

I

Minha mãe
lavava a roupa no tanque.
Fazia espuma de sabão
com um cabo de vassoura.
(Que nem criança 
ficava olhando arco-íris
nas bolhas.)
Depois
em folha de zinco
quarava sua roupa ao sol.

Meu pai dizia-lhe minha flor.

E eu pensava
— Um dia vou ter um homem assim.


II

Minha mãe me dizia Joaquinita.
Tinha voz de veludo.

No fogão a lenha
fazia a goiabada cascão
no tacho de cobre.
(Sua face esfogueava.)
E em silêncio rezava ladainha
bendizendo o Senhor.

No chuveiro
eu tomava banho frio
com sabonete Eucalol.
E cantava.
Subia nas árvores.
Com os dentes 
descascava manga-espada
agridoce
ainda morna do sol.

Tudo era certo e natural.
Minha mãe estava ali, 
meu pai por perto.

Acreditava 
que ia durar para sempre.


III

Nunca ouvi minha mãe cantar. 
Minha mãe tinha passos silenciosos.

Meu pai
enxertava flor-de-maio
colhia favos de mel
e fazia versos.

Eu cantava you are always in my heart
e ouvia
em ondas curtas
a BBC de Londres.

Não entendia nada.
Mas ficava fascinada.

22 de julho de 2012

Três homens na Avenida Paulista

Os que passam lá embaixo — a avó mostrando ao neto um super-herói — não percebem a oscilação. Josué balança calmamente as duas pernas acima da Avenida Paulista, intercalando-as num movimento lúdico. Arremessa tinta à parede. Espalha. Sobe trinta centímetros e espalha, suspenso no ar por um fio. Na avenida, passam o carro do ministro e a filha do banqueiro. A cidade tem trânsito infernal, barulhos de foguetório e ambulância, e uma indiferença que se edifica por todos os lados. Prepara-se agora mesmo um temporal daqueles e Josué, enraivecido, põe as mãos na calça suja. Abre seu botão, puxa a braguilha. Com os pés, empurra sutilmente a parede e faz a cadeira girar em torno do próprio eixo. Mija agora por sobre a cidade de São Paulo. 

II 
Hoje é este que caminha pela Avenida Paulista. Debaixo do paletó, o suor gruda-lhe os pêlos à barriga gorda e as tetas, flácidas, marcam duas linhas simétricas de assadura. É um homem de negócios, de idas e vindas e cafés importados. Antes da separação, dizia à esposa ao término dos atos: "puta na cama e dama na sociedade". Ato-contínuo, dormia. Não distinguia o preço de uma mulher do preço de um whisky. Quando deu a esposa para ser dama na cama e — não raro — puta na sociedade, espezinhou-a e teve de pagar cestas básicas à delegacia da mulher. Passou a fumar compulsivamente. Hoje, caminha pela Avenida Paulista a invejar carros e esconde um olhar promíscuo por detrás dos óculos. Vê viados passando, putas rebolando, senta, afrouxa a gravata e o cinto e solta um arrotinho indiscreto. 

III 
A camisa abre-se em três botões, a exibir os pêlos, e o vento lhe define todo o corpo. Desfila pela cidade um rosto austero, bem formado para os pouco mais de vinte anos. O cabelo é cacheado e a barba é por fazer. As maçãs do rosto dão-lhe um ar sisudo, mas o meio-sorriso reconstitui o equilíbrio e arrasta atrás de si toda uma cidade. Ai, quantas mulheres e quantos homens não param para vê-lo passar! (Repare na senhora do residencial: rega as plantas e inunda-se em calor, refaz a libido. Ou então a mocinha da banca, que arruma os jornais precipitadamente e cora toda a face. E até mesmo os garotos do cursinho, sentados à escada, ardendo.) Passa, e é muito mais homem quando no sentido Consolação. Torna a esquerda, entra num café. Ai, o frio na barriga que atravessa toda a avenida na velocidade do metrô!