15 de janeiro de 2012

Sobre grifar um livro no ônibus



A pressa é inimiga da perfeição. Por isso, não adianta esperar o ônibus parar no ponto e, em poucos segundos, empreender a tarefa — no final das contas, a escolha acaba por ser tortuosa. É no próprio movimento do veículo que se deve executar meticulosamente cada passo: primeiramente, estendo o livro nas coxas a ponto de chapá-lo; é certo que isso lhe causa algum prejuízo à capa, mas não há o que fazer. Em seguida, concentro-me no objeto pontiagudo: firmo a ponta do grafite no patamar exato entre as duas linhas e inclino a mão numa angulatura segura. Então, no momento final, autoconfiante e sem fechar os olhos, inicio o deslizar da lapiseira quando, de repente, um solavanco. Haverá algo mais irritante do que isso?

Ilustração: Daniel Serrano

2 comentários:

Leandro disse...

genial, Pedrinho! Genial! Beleza de figura!

Pedro B. M. Serrano disse...
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