6 de janeiro de 2012

Se você fosse eu ficasse

O jeito que sai a palavra é o jeito que ela tem que estar. Uma boca pode se fazer de correta ou de preguiçosa, de altiva ou severa, mas jamais pode empunhar a caneta e lapidar o que por ela sai. Se a palavra quiser sair correta, assim sairá. Se quiser sair serena, sair cortante, assim também será. E se houver por bem desrespeitar o tempo verbal, cuspir na norma culta e desdenhar da sintaxe, quem haverá de corrigi-la? A palavra falada existe para atravessar a boca sem dó nem piedade — roçar o céu e roçar a língua, botar em movimento uma máquina de significados.

Certa vez estava num carro junto com meu irmão mais novo. O destino da viagem era de programa sério, e por isso tive a idéia de deixar o pequeno em casa para que não se incomodasse. Antes, consultei-o: quer ficar em casa? E recebi uma resposta (de amor incondicional): “se você fosse, eu ficasse”.




Áudio: Ai se sesse (Composição: Zé da Luz; Leitura: Lirinha)

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