15 de janeiro de 2012

Sobre grifar um livro no ônibus



A pressa é inimiga da perfeição. Por isso, não adianta esperar o ônibus parar no ponto e, em poucos segundos, empreender a tarefa — no final das contas, a escolha acaba por ser tortuosa. É no próprio movimento do veículo que se deve executar meticulosamente cada passo: primeiramente, estendo o livro nas coxas a ponto de chapá-lo; é certo que isso lhe causa algum prejuízo à capa, mas não há o que fazer. Em seguida, concentro-me no objeto pontiagudo: firmo a ponta do grafite no patamar exato entre as duas linhas e inclino a mão numa angulatura segura. Então, no momento final, autoconfiante e sem fechar os olhos, inicio o deslizar da lapiseira quando, de repente, um solavanco. Haverá algo mais irritante do que isso?

Ilustração: Daniel Serrano

6 de janeiro de 2012

Se você fosse eu ficasse

O jeito que sai a palavra é o jeito que ela tem que estar. Uma boca pode se fazer de correta ou de preguiçosa, de altiva ou severa, mas jamais pode empunhar a caneta e lapidar o que por ela sai. Se a palavra quiser sair correta, assim sairá. Se quiser sair serena, sair cortante, assim também será. E se houver por bem desrespeitar o tempo verbal, cuspir na norma culta e desdenhar da sintaxe, quem haverá de corrigi-la? A palavra falada existe para atravessar a boca sem dó nem piedade — roçar o céu e roçar a língua, botar em movimento uma máquina de significados.

Certa vez estava num carro junto com meu irmão mais novo. O destino da viagem era de programa sério, e por isso tive a idéia de deixar o pequeno em casa para que não se incomodasse. Antes, consultei-o: quer ficar em casa? E recebi uma resposta (de amor incondicional): “se você fosse, eu ficasse”.




Áudio: Ai se sesse (Composição: Zé da Luz; Leitura: Lirinha)