24 de setembro de 2011

Identidade de gênero


Imagine um elevador e, dentro dele, duas gestantes e uma mulher com criança de colo. Entrou o sujeito e parou no quarto canto do recinto, em distância reverente. Vestia camisa e calças de tecido fajuto, nem para secar as mãos prestavam. As mãos, aliás — onde colocá-las? O elevador é a condensação do constrangimento, um embaraço mútuo e vertical. Uma das mulheres entrelaçava-as abaixo da barriga pontuda (parecia segurar um cesto de frutas); a outra inclinava um olhar de quem escuta música clássica. A criancinha, no colo da mãe, era só esgar e tapas no ar. Na cabeça de cada um, um raio-x completo do outro, e disso se sabia já à altura do terceiro andar. De fora, só a criança, com cabelos ralos na pele branca, tapinhas. O homem deveria coçar a barba? Deveria coçar o saco? Ou quebrar o silêncio seria o controle da situação? Foi quando, malfazendo um sorriso complacente, tentou: é menina? E a mãe — inevitável a certa altura — bradou: não, é menino.

Ilustração: Daniel Serrano