14 de agosto de 2011

Farra do dinheiro

Achar dinheiro me dá sempre uma alegria incontida. Os olhos passeiam pela área comum e, de repente — dinheiro. Não é por ele próprio exatamente que fico feliz, até porque, no mais das vezes, a sorte é quantitativamente pequena; trata-se do acontecimento em si. Em nosso mundo, perder dinheiro é perder poder e, assim como alguém deixa escorregar de seu bolso um bocado de autoridade, eu, ao encontrá-lo, entrego-me gostosamente a uma avareza modesta. Assim foi anos e anos atrás. Eu andando de bicicleta (talvez recém-saído das rodinhas) e, de repente, uma nota de cinco reais. Cinco reais no chão. Quantos sorvetes, quantos chicletes, quantas mais balas! Tinha a sensação de rodar a um raio exato em torno da nota, em mais nada prestava atenção, e caí. Ralado, mas não menos impetuoso — pronto, peguei. E a história ganhou contornos anedóticos por anos a fio entre aqueles que viram a cena.


Passado mais de década, eis que uma situação me fez lembrar de tudo. Caminhava eu em passeata pedindo a saída de Ricardo Teixeira da presidência da CBF. Notório corrupto, sem dúvidas, de mãos dadas com a Globo e as empreiteiras e, de repente — dinheiro. Aliás, cinco reais no chão. A nota não se dignara sequer a mudar de cara, estava ali, amassada que eu diria ter uns 15 anos. De puro ímpeto, parei de caminhar. De quem seria aquele dinheiro, tamanho poder sendo pisoteado? Absorto, esbarrando e ralando a banda, cortei em perpendicular a passeata até colocar a nota no bolso — pronto, peguei. Mas, dessa vez, tive um gozo diferente: imaginei que o pertence-perdido fosse do próprio cartola-corrupto do futebol; um naco de autoridade sendo pisoteado por tanta gente assim, junta — que fantástico! Tirei a nota do bolso, revi o número 5 e ele já não era assim tanta coisa: talvez uma cerveja e a passagem do busão. Com uma correção monetária, dava-se completa razão à minha infantil queda da bicicleta.