19 de julho de 2011

O patriarca

Alto lá!, após um esmurro na mesa, e postava-se já de pé. Desde os 70, dera para dar broncas, proferir discursos e aplicar represálias assim, erguido. A rapidez com que se levantava fazia com que, em segundos, toda sua fragilidade física se esmaecesse: ombros largos, que já mal se sustentavam sobre as pernas frágeis, e era somente um estremecer geral da mesa, raspada bruscamente pelas coxas, que se percebia (e se assustava menos, já com o tempo) antes de ficar de pé. Dali de cima, as palavras saíam fortes e agressivas, como se cada consoante fosse um tapa na cara, e o bigode segurava uns restos de comida que voavam da boca. O menino, sete anos, netinho de tudo, não olhava para cima, o vovô parecia ter 3 metros assim; crispava somente os braços por debaixo da mesa, duro como ficava desde os primeiros anos; as pernas relaxava, pois ali a avó escondidamente pousava a mão para tranquilizá-lo. Por cima da mesa, a velha também inclinava a cabeça e perdia um olhar de esposa, ouvindo, um pouco cansada, um pouco entregue. E a filha, do lado oposto, distraía as duas mãos no cabo da taça de vinho, como quem segura um crucifixo ao pescoço; a mesa tinha quatro cantos.

E não havia quem soubesse mais do que ele, quem se atrevesse a pôr reparo ou atinar contra Salazar na casa de um Gomes. Quando voltava a sentar, a cena assustava um pouco mais: as pernas já não seguravam o corpo, que caía de um só lance de volta à cadeira, empurrando-a uns três palmos para mais distante da mesa. Dali, pigarreava, secava o suor da testa e era olhado por seis olhos ímpios. E a família voltava ao normal, com menos alegria e também menos fome, embora comendo.

3 comentários:

Paula Kaufmann disse...

O que eu mais gosto das férias é que isso aqui volta a se movimentar...
Para variar, excelente texto!

Daniel Serrano disse...

isso aí era antes do 25 de abril! (bom texto)

CaraMela Amendola disse...

vale também para a família patriarcal brasileira.