— És tu com desejos de azeitonas e eu com desejos de mundo...
em Contos da Montanha, de Miguel Torga
Portugal deixou-me com um lirismo um tanto aguçado. Quando falava, saíam de minha boca palavras comuns; mas no pensamento transcorria toda uma verve poética. Em literatura, também, deixou-me uma vontade excessiva. E foi numa dessas que me meti pela fila da livraria, com um punhado de poemas e contos debaixo do braço. Quando cheguei ao balcão, despejei-os e vi a balconista: pinçou, um por um, cada livro; uns braços brancos como coelho e unhas sem vaidade. Ao término, me disse: é para oferecer? E parei naquilo. Agudei o ouvido, olvido, e pude definir a voz: algo aguçarada, digo, açucarada. Ainda parado, cogitei que fosse um sinônimo do nosso “é para presente?”, já que estar em Portugal é sentir-se fluente em língua alheia. Mas não, foi somente um instante de distraimento, que pude romper, solene e sutilmente, para dizer: sim, a si.
4 comentários:
Texto delicioso, Pedro; esperto, sutil. Há sempre uma pinça percuciente prontinha para alçar, do cotidiano, uma epifanias. Gosto também dessa pegada breve.
Abraço, sempre!
Quanto tempo sem atualizações por aqui! Valeu a espera. Dois textos envolventes e divertidos.
Muito bons os seus posts. São escritos com uma naturalidade e ritmo envolventes. Acho que Portugal e seus escritores, com um jeito próprio de cantar essa'nossa' língua nos enchem de sede de poesia. Tem uma blogueira ótima de Portugal que gosto de ler, o blog dela se chama Azul azul céu e consta no meu blogroll. Posso add seu blog no blogroll?
Claro, colega! Fico muito feliz com seu comentário. Um abraço.
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