25 de julho de 2011

— És tu com desejos de azeitonas e eu com desejos de mundo...
em Contos da Montanha, de Miguel Torga

Portugal deixou-me com um lirismo um tanto aguçado. Quando falava, saíam de minha boca palavras comuns; mas no pensamento transcorria toda uma verve poética. Em literatura, também, deixou-me uma vontade excessiva. E foi numa dessas que me meti pela fila da livraria, com um punhado de poemas e contos debaixo do braço. Quando cheguei ao balcão, despejei-os e vi a balconista: pinçou, um por um, cada livro; uns braços brancos como coelho e unhas sem vaidade. Ao término, me disse: é para oferecer? E parei naquilo. Agudei o ouvido, olvido, e pude definir a voz: algo aguçarada, digo, açucarada. Ainda parado, cogitei que fosse um sinônimo do nosso “é para presente?”, já que estar em Portugal é sentir-se fluente em língua alheia. Mas não, foi somente um instante de distraimento, que pude romper, solene e sutilmente, para dizer: sim, a si.

19 de julho de 2011

O patriarca

Alto lá!, após um esmurro na mesa, e postava-se já de pé. Desde os 70, dera para dar broncas, proferir discursos e aplicar represálias assim, erguido. A rapidez com que se levantava fazia com que, em segundos, toda sua fragilidade física se esmaecesse: ombros largos, que já mal se sustentavam sobre as pernas frágeis, e era somente um estremecer geral da mesa, raspada bruscamente pelas coxas, que se percebia (e se assustava menos, já com o tempo) antes de ficar de pé. Dali de cima, as palavras saíam fortes e agressivas, como se cada consoante fosse um tapa na cara, e o bigode segurava uns restos de comida que voavam da boca. O menino, sete anos, netinho de tudo, não olhava para cima, o vovô parecia ter 3 metros assim; crispava somente os braços por debaixo da mesa, duro como ficava desde os primeiros anos; as pernas relaxava, pois ali a avó escondidamente pousava a mão para tranquilizá-lo. Por cima da mesa, a velha também inclinava a cabeça e perdia um olhar de esposa, ouvindo, um pouco cansada, um pouco entregue. E a filha, do lado oposto, distraía as duas mãos no cabo da taça de vinho, como quem segura um crucifixo ao pescoço; a mesa tinha quatro cantos.

E não havia quem soubesse mais do que ele, quem se atrevesse a pôr reparo ou atinar contra Salazar na casa de um Gomes. Quando voltava a sentar, a cena assustava um pouco mais: as pernas já não seguravam o corpo, que caía de um só lance de volta à cadeira, empurrando-a uns três palmos para mais distante da mesa. Dali, pigarreava, secava o suor da testa e era olhado por seis olhos ímpios. E a família voltava ao normal, com menos alegria e também menos fome, embora comendo.