20 de dezembro de 2010

O livro e o homem

Com apreço toca-se pela primeira vez o objeto. É preciso examiná-lo de maneira aplicada, com respeito; é preciso, paulatinamente, entregar-se à disputa pela autoridade e pela disciplina. Quando é de poucas páginas, surge a desconfiança: qual será a densidade, qual tamanho verdadeiro surgirá das entranhas dessas palavras? Quando vem carregado de muitas folhas, então, crescem as suspeitas: como chegar ao final, como destrinchar toda essa densa diluição? O prazer do leitor, afirmo sem medo de errar, é a disputa que se trava ao longo da leitura: quem manda mais, o livro ou o homem?

O tamanho é somente um dos elementos que perpassam essa disputa. Como quem divide o espaço (número de páginas) pelo tempo (número de dias), todo leitor estabelece uma velocidade média de leitura — sujeita a percalços. Quando se extrapola a meta diária, ponto para o homem, um gozo tácito se derrama por sobre o livro, contido somente pelo medo do dia de amanhã. No dia seguinte, que amanhece sob o mais encantador céu azul, a meta diária não se cumpre, e ponto para o livro.

Algumas situações peculiares enriquecem o duelo. Quando, por exemplo, um capítulo por si só é mais extenso do que a meta diária, tem-se um impasse: ou sua leitura não se dá num único dia, o que desestrutura todo um planejamento meticuloso, ou empreende-se a missão quixotesca de, num golpe de mata-leão, domar todo o capítulo num só dia, fazendo com que o mesmo peça água e bata três vezes em sua capa ao final da leitura: ponto para o homem. Situação interessante, também, é chegar à metade do número de páginas: a contagem, deixando de ser progressiva para ser regressiva, subitamente deixa de ser favorável ao livro para ser favorável ao homem.

Quero ainda seguir na análise sobre o ato da leitura, me atendo mais aos aspectos qualitativos do que aos quantitativos. Do mesmo modo, jogando luz não somente à competição entre o livro e o homem, mas também às relações harmoniosas entre os dois campos da vaidade. Mas paro por aqui, pelo menos por enquanto — jogado à minha cama está o livro que ora leio, sorrindo, vitorioso, nem aí para o fato de eu gastar meu tempo de leitura em ato de escrita.

6 comentários:

Daniel Serrano disse...

Donde se conclui que passaste os últimos cinco meses lendo; à parte a brincadeira, bela postagem essa: ler, realmente, como você diz, é um jogo.

Maya Novais disse...

Concordo com quase tudo do texto! A única diferença se dá no fato de que não desconfio do que será a leitura. Só quero ler e desfrutar do momento de paz que tenho, além de achar que nenhum livro é desperdício!

Gostei mto do texto!Parábens!

Daniel Serrano disse...

acredite: ter lido 'o doce veneno do escorpião' foi desperdício

Pedro B. M. Serrano disse...

Mayara! Fiquei feliz em ver seu comentário por aqui =) Agradeço bastante. Beijo!

Beatriz R. disse...

Que texto bonito! Nunca pensei na leitura como uma disputa tão emocionante. Pensar assim deixa o ato de ler mais divertido. HAHA

Anônimo disse...

Puxa, confesso que estou morrendo de preguiça (e de medo) de enfrentar esse embate díário com as páginas de Durkheim, Montesquieu, Lévi-Strauss...
O tal cumprimento da angustiante meta diária demanda muita disciplina. É realmente uma disputa.


É um pouco triste essa relação de obrigação estrita com a leitura, não acha? É horrível quando você, um tanto aflito com o prazo da leitura, se vê fazendo mentalmente a conta das páginas que ainda restam...

(Se bobear o título do texto deveria ser "O livro e o estudante da FFLCH", Haha, brincadeira!)


Enfim, fiquei muito feliz de ter visto mais um texto seu aqui no blog! Gostei muito dele, Pedrinho! Me identifiquei bastante...


Beijo!,
Clara