Com apreço toca-se pela primeira vez o objeto. É preciso examiná-lo de maneira aplicada, com respeito; é preciso, paulatinamente, entregar-se à disputa pela autoridade e pela disciplina. Quando é de poucas páginas, surge a desconfiança: qual será a densidade, qual tamanho verdadeiro surgirá das entranhas dessas palavras? Quando vem carregado de muitas folhas, então, crescem as suspeitas: como chegar ao final, como destrinchar toda essa densa diluição? O prazer do leitor, afirmo sem medo de errar, é a disputa que se trava ao longo da leitura: quem manda mais, o livro ou o homem?
O tamanho é somente um dos elementos que perpassam essa disputa. Como quem divide o espaço (número de páginas) pelo tempo (número de dias), todo leitor estabelece uma velocidade média de leitura — sujeita a percalços. Quando se extrapola a meta diária, ponto para o homem, um gozo tácito se derrama por sobre o livro, contido somente pelo medo do dia de amanhã. No dia seguinte, que amanhece sob o mais encantador céu azul, a meta diária não se cumpre, e ponto para o livro.
Algumas situações peculiares enriquecem o duelo. Quando, por exemplo, um capítulo por si só é mais extenso do que a meta diária, tem-se um impasse: ou sua leitura não se dá num único dia, o que desestrutura todo um planejamento meticuloso, ou empreende-se a missão quixotesca de, num golpe de mata-leão, domar todo o capítulo num só dia, fazendo com que o mesmo peça água e bata três vezes em sua capa ao final da leitura: ponto para o homem. Situação interessante, também, é chegar à metade do número de páginas: a contagem, deixando de ser progressiva para ser regressiva, subitamente deixa de ser favorável ao livro para ser favorável ao homem.
Quero ainda seguir na análise sobre o ato da leitura, me atendo mais aos aspectos qualitativos do que aos quantitativos. Do mesmo modo, jogando luz não somente à competição entre o livro e o homem, mas também às relações harmoniosas entre os dois campos da vaidade. Mas paro por aqui, pelo menos por enquanto — jogado à minha cama está o livro que ora leio, sorrindo, vitorioso, nem aí para o fato de eu gastar meu tempo de leitura em ato de escrita.
6 comentários:
Donde se conclui que passaste os últimos cinco meses lendo; à parte a brincadeira, bela postagem essa: ler, realmente, como você diz, é um jogo.
Concordo com quase tudo do texto! A única diferença se dá no fato de que não desconfio do que será a leitura. Só quero ler e desfrutar do momento de paz que tenho, além de achar que nenhum livro é desperdício!
Gostei mto do texto!Parábens!
acredite: ter lido 'o doce veneno do escorpião' foi desperdício
Mayara! Fiquei feliz em ver seu comentário por aqui =) Agradeço bastante. Beijo!
Que texto bonito! Nunca pensei na leitura como uma disputa tão emocionante. Pensar assim deixa o ato de ler mais divertido. HAHA
Puxa, confesso que estou morrendo de preguiça (e de medo) de enfrentar esse embate díário com as páginas de Durkheim, Montesquieu, Lévi-Strauss...
O tal cumprimento da angustiante meta diária demanda muita disciplina. É realmente uma disputa.
É um pouco triste essa relação de obrigação estrita com a leitura, não acha? É horrível quando você, um tanto aflito com o prazo da leitura, se vê fazendo mentalmente a conta das páginas que ainda restam...
(Se bobear o título do texto deveria ser "O livro e o estudante da FFLCH", Haha, brincadeira!)
Enfim, fiquei muito feliz de ter visto mais um texto seu aqui no blog! Gostei muito dele, Pedrinho! Me identifiquei bastante...
Beijo!,
Clara
Postar um comentário