5 de julho de 2010

O esquema tático da torcida brasileira

Àquela altura, aos 45 minutos do segundo tempo de Brasil e Holanda, tudo se desorganizou. Foi-se embora a cortesia do anfitrião e embaralharam-se os lugares supersticiosamente respeitados no sofá. Não havia técnico, não havia técnica. Era tudo raça, coração, reza, choro, grito. A torcida brasileira incrivelmente refletia o time em campo, acompanhava-o ora querendo antecipar um desarme, um passe, um gol. Àquela altura da partida, o esquema tático de minha família era o 4-4-2. Invertido.

Quatro familiares postados em frente à tevê, quase de cócoras, prontos para pular festejando o gol; era o setor da esperança, da agressividade, do “pra frente Brasil!”. Outros quatro ficavam um pouco mais atrás, sentados, compondo o setor da reza e do pensamento positivo; aliás, aí estava minha avó: mãos firmes e juntas comprimindo o peito e olhos semicerrados, como quem fala com Deus sem perder a curiosidade mundana. Não é afeita a preces ordinárias, é verdade, mas era estimulada pelo meu tio que, à sua direita, compondo a linha de quatro no meio-de-campo, dizia: “Reza, mãe, reza que mais tarde você reza de novo, pedindo desculpas por ter rezado.” E, fechando o esquema tático, dois zagueirões, brucutus da esperança; lá atrás, ora andavam impacientemente, ora liam o jornal (mesmo que de ponta-cabeça); em suma, negavam a seleção com a certeza rabugenta dos que querem ser surpreendidos.

Culpas se acharam aos montes. Talvez a mudança do esquema tático. O 4-4-2 tradicional funcionou bem, conduziu o Brasil ao primeiro gol: quatro zagueiros tranqüilos, bem acomodados em cadeiras atrás do sofá, quatro meio-campistas inteligentes, cadenciando o jogo em cima das almofadas, e dois atacantes sentados no chão, mais próximos à tevê. Talvez também tenha faltado banco de reservas, já que meus primos não apareceram para a torcida... Ou a presença do goleiro, meu pai, que em jogos nervosos tem o hábito de se distanciar da tevê — passou o jogo no jardim, caçando borboletas... Mas acho que era mesmo o caso de desvelar o Felipe Mello da família...

4 comentários:

Sandro Batista disse...

Cara, que crônica é essa???

SENSACIONAL! Olha, de tudo que já li sobre o fatídico jogo, essa é sem dúvida o que de melhor passou por meus olhos... Muito bom mesmo, de verdade!

Parabéns!

http://estacaoprimeiradosamba.blogspot.com/

Paula Kaufmann disse...

Já estava indo te cornetar pra atualizar o blog. Ler seus textos fez falta no decorrer do semestre. Muito bom ,Pedrã!

Anônimo disse...

PP,

Isso tudo sem contar com o Gabriel mandando embora 2 pés frios, claramente os culpados pela tragédia até então e ao ser questionado pela mãe responde: "Você queria que eu fizesse o que?"

Daniel Serrano disse...

Ficou muito legal! Gostei do texto.