2 de abril de 2010

O herege

Saiu do trabalho para voltar só depois de amanhã. Há quanto tempo não descansava! Vinha atropelando fins-de-semana há semanas, sem dormir. Acenou aos colegas, apertou a mão de alguns e foi tratar do descanso. Entrou num ônibus. Nele, puxou papo com o motorista e fez sinal da cruz para o terço perdurado no retrovisor. Já passava da meia noite quando puxou a cordinha. Desceu no ponto mais próximo de sua casa, singela como um dia de descanso, isolada entre matagais como um dia de descanso. Andou um bocado, pegou a chave e abriu o portão. Sua mulher dormia, sua filha dormia. Amanhã, feriado, talvez se divertissem. Tinha fome. Antes do banho, foi à geladeira, capenga como a casa, enferrujada como a cor da sujeira em seus braços. Puxou uma travessa. Carne de ontem, borrachuda, gelada. Sem tempo para esquentá-la, sem querer puxar um talher, pinçando com a mão pegou um naco. “Santa sexta-feira que vem chegando”, pensou e colocou a carne na boca. Nesse exato momento, pecou.

10 comentários:

Aguiar disse...

Ao menos, fez-se o ritual: ao corpo de Cristo, o melhor tratamento se dá com as mãos. Estão aí séculos de ritos dos curas para comprová-lo.

Em tempo, tenho a impressão de que este Papa permitiu a carne há algum tempo. No fim, também isso poderá ser mobilizado em defesa deste herege que me parece familiar - e aquele que carrega o nome do fundador há de ser perdoado.

Daniel Serrano disse...

ao menos o rarear exponencial das atualizações se refletiu em bom texto, como de fato este é. parabéns e siga nessa - obviamente não no que se refere à assiduidade.

Giovanna disse...

Oi Pedrinho! Vejo que você também tem seu blog!
Queria agradecê-lo pelo comentário que você deixou, fico muito feliz que tenha gostado.

Bem, percebo que você também tem a sua sensibilidade! hehe
Muito bacana a percepção de cotidiano e a descrição que você coloca em seus textos (já pensou em escrever crônicas?)
Continue escrevendo (e leve o tempo que precisar!)

Um beijo da,
Giovanna.

Anônimo disse...

Uma das piores relações cotidianas é essa com a comida da geladeira. Ainda por cima quando se está louco pra chegar em casa e, então, quando se chega, dá um arrependimento enorme e vontade de ter chegado na casa errada.
É um ódio danado daquela comida de dentro da geladeira, completamente impassível! Todo o cansaço, (a)cúmulo da semana, contrasta com aquela matéria imóvel.
A raiva já é bastante; que vão ao inferno todos os talheres e as panelas! – que poderiam proporcionar um pouco mais de dignidade àquele jantar.

Devia era ter ido dormir logo de cara.


Olha, seu conto meu deixou com um pequeno e incômodo nó na garganta. – e não foi por ser sexta-feira santa.
(Na verdade acho que eu fiquei mais incomodada do que o personagem.)


Enfim, esse é certamente mais um daqueles pra contar.

Beijo,
Clara

Paula Kaufmann disse...

Confesso: comi um misto quente no café da manhã desta Santa Sexta

Marco A.de Araújo Bueno disse...

Texto ágil e encorpado e com final impactante. Daqueles 'monobloco', de uma sentada. Pegada de crônica, concordo com a moça e o velho distanciamento sarcástico.Se permitido,há de migrar como uma das ilustrações de 'short-histories" na coluna Fragmentália do coletivo www.e-chaleira.blogspot.com. Um bom epígrafe seria - "Você tem fome de quê?", dos titãs.

Abraço e muito parabéns

Lilian disse...

olá Pedro,
bom voltar a te encontrar!
E que texto esse teu "Herege"!!
Redondo!
você que está lá na USP, conhece o prêmio Nascente? quem sabe pode ser uma boa?
abço grande, vamos nos visitar mais!
Lilian

Samir Luna de Almeida disse...

Mais vale uma carne na mão do que uma santidade voando!

Aguiar disse...

Confesso que, dois meses depois, sinto falta desse blog!

Anônimo disse...

!!!

É a Lilian!!!

Meu deus!, Pedrinho!, como você conhece a Lilian?!

(Pronto. Perguntei por aqui pra não correr o risco de esquecer depois).

Um beijo
Clara.

PS. Concordo com o Tiago.
(Não se iluda, um comentário na forma de "PS", é apenas aparentemente algo menos importante...)