2 de abril de 2010

O herege

Saiu do trabalho para voltar só depois de amanhã. Há quanto tempo não descansava! Vinha atropelando fins-de-semana há semanas, sem dormir. Acenou aos colegas, apertou a mão de alguns e foi tratar do descanso. Entrou num ônibus. Nele, puxou papo com o motorista e fez sinal da cruz para o terço perdurado no retrovisor. Já passava da meia noite quando puxou a cordinha. Desceu no ponto mais próximo de sua casa, singela como um dia de descanso, isolada entre matagais como um dia de descanso. Andou um bocado, pegou a chave e abriu o portão. Sua mulher dormia, sua filha dormia. Amanhã, feriado, talvez se divertissem. Tinha fome. Antes do banho, foi à geladeira, capenga como a casa, enferrujada como a cor da sujeira em seus braços. Puxou uma travessa. Carne de ontem, borrachuda, gelada. Sem tempo para esquentá-la, sem querer puxar um talher, pinçando com a mão pegou um naco. “Santa sexta-feira que vem chegando”, pensou e colocou a carne na boca. Nesse exato momento, pecou.