19 de janeiro de 2010

São Paulo

Encarando a cidade frente a frente, posso ainda não ter visto o seu rosto; preconceituoso, posso também enxergar somente os seus defeitos, incutindo a mim mesmo uma capciosa cegueira urbana; vai ver, além disso, que o errado entre tantos milhões sou eu próprio, que inflo meu discurso com a aura da verdade, mas jamais deveria me aventurar em terras estranhas — passa-se, contudo, que há um ano vivo em São Paulo e não encontro meio de ver beleza na cidade.

Trânsito, buzinas, caos. Poluição, mau-humor, um antro tucano. Creio que ninguém veja beleza na cidade; somente com muito esforço se pode vê-la, romantizando a feiúra. Não sou eu, contudo, capaz de tal feito (talvez o sejam as músicas). Em São Paulo, vejo somente uma profunda feiúra; vejo uma cidade não estruturada, vivendo uma puberdade desordenada e infinda, que põe alguns a nadar em dinheiro e outros a nadar em enchentes; vejo a infelicidade, retratada nos rostos dos muitos que, para o ócio de poucos, trabalham, construindo a feia cidade da qual são reféns. Não gosto do mau-humor paulistano, da poluição da cidade, de seu transporte público; São Paulo, para mim, simboliza a injustiça.


Se, contudo, existe alguém capaz de embelezar a cidade, esse alguém é o próprio povo. Feio de doer (pois que é cheia de feiúra a exploração), somente daí é que acredito ser possível sair a beleza — quem se vê obrigado, diariamente, a pintar uma cidade diabólica pode, um dia, fazer uma pintura não tão feia.

2 comentários:

Carolina Braga disse...

parabéns pelos textos pedrinho!

Anônimo disse...

Pedrinho,

(este é o segundo post lido!)
Em primeiro lugar, adorei a imagem "vivendo uma puberdade desordenada e infinda" - bom, não sei se "adorei" é a palavra certa. (Acho que não.) Mas vale assim mesmo -; e boa escolha musical!

Há momentos - e eles são vários - em que acho que São Paulo é assustadora. Realmente.

Na verdade, talvez São Paulo se porte durante todos os momentos de forma hostil; mas, puxa vida!, como ela é às vezes bonita!
Às vezes, a beleza está no que ela tenta esconder, numa casinha apertada entre muros altos ou no aceno dum desconhecido; e às vezes, a beleza está na grandeza da cidade mesmo - quando é dia de chuva é uma beleza que dá medo.

Bom, sei lá, talvez essa história de procurar beleza em São Paulo apesar do trânsito, buzinas, enchentes e, sobretudo, do mau-humor seja coisa de paulistano mesmo.
(Que outro jeito, né...?)

Chega. Já to com vergonha de ficar viajando tanto assim num espaço destinado a um comentário.

Beijo,
Clara.