1 de janeiro de 2010

Olhos com ressaca

O dia que inaugura o ano tem sempre a proeza de ser o dia mais chato do ano. Não à toa passei o dia inteiro em busca de algum ismo para pôr nesse blog a esmo — em vão, até agora. Tive de buscar inspiração num dia semelhante ao de hoje: era domingo, a família se postava no sofá, entregue à fome perene que é trazida pelo tédio. Alguém, no intuito de impedir que se somasse um Fausto Silva ao quadro acachapante da família em tal tarde, sugeriu que assistíssemos à minissérie Capitu — excelente minissérie (já disponível em DVD) exibida pela abominável Rede Globo. Foi uma boa pedida.

Assim decorreu a tarde de minha família naquele dia: minissérie Capitu. Algo super cultural e atípico para um domingão, coisa para instigar a inveja de quem agora me lê. Acontece que os domingos, exiba-se o que se quiser na televisão, são inexoráveis. Assim como um 1º de janeiro, em hipótese alguma, nem mesmo por decreto presidencial ou obra divina, pode ter sol aberto, os domingos não podem deixar de ter aqueles que dormem no sofá, mesmo que aos ouvidos dorminhocos soem palavras machadianas. E assim dormiu meu pai, ignorando a minissérie que desconhecia.

Nisso, chego num ismo capaz de se colocar nessa postagem que finalmente está saindo: relativismo. É tudo uma questão de como se vê a coisa. Há gente que veja saúde e felicidade num ano-novo que, em minha opinião, se inaugura com ressaca e tédio. Há gente, também, que veja genialidade no romance Dom Casmurro, enquanto outros nem tanto. E não me refiro, aqui, ao descaso sonolento de meu pai, que despertou lá pelos últimos capítulos, querendo pragmaticamente desvendar o mistério sobre o possível adultério de Capitu. Refiro-me, sim, ao meu irmão mais novo, que, entrando na discussão familiar, lançou um novo olhar sobre a obra machadiana, de supetão. “Depois de ler o livro inteirinho”, indagou ele, “ninguém pode saber se Ezequiel é filho de Bentinho ou de Escobar?”. “Não”, unissonamente a família. “Pô, que lixo!”, disparou o moleque.

4 comentários:

Beatriz R. disse...

Eu, por exemplo, coloco o título de dia mais chato do ano no último. Mas é indicutível a monotonia das tardes de domingo, assim como a genialidade de Machado de Assis. Dom Casmurro é uma obra cheia de relativismo, tanto pelas possibilidades do que pode realmente ter acontecido quanto pela insatisfação de muitos com o enigma deixado pelo autor e o anseio de outros por descobrir a verdade.

Vou tentar assistir a minissérie na íntegra.

Aliás, Feliz Ano Novo!

Pedro Bueno de Melo Serrano disse...

Oi, Beatriz.
Obrigado pela visita e pelo comentário!

Feliz ano-novo para você também!

Daniel Serrano disse...

pô, que lixo

Aguiar disse...

Recém-chegado a minha casa, venho a estas linhas e preciso dizer que há mais no Ano Novo: as intermináveis horas que se passam indo daqui a ali, aumentando a caudalosa irracionalidade dos deslocamentos humanos e pluviais que, nos dias de festa, são tão-somente a exaltação do cotidiano. De qualquer modo, concordo que o relativismo aqui está bem colocado e, então, posso notar que o autor segue com sua tradicional rabugice combinada ao olhar oblíquo, dissimulado e quase-cigano já característico. De quebra, escreveu duas postagens na mesma semana. Sinal de que entramos (com o pé direito e pulando ondinhas) no Ano Novo.
Feliz 2010, Pedro!