9 de janeiro de 2010

O monarquista

Há palavras que são como moscas: basta uma boca se abrir que elas pulam para dentro. Logo em seguida (duvido que alguém tenha o hábito de comer moscas), são jogadas para fora. Democracia é uma delas. Vai sempre de encontro ao ouvido alheio, junto ao visco da retórica. Do progressista ao reacionário (um sincero e outro não), todos utilizam a palavrinha mágica para justificar suas posturas e enriquecer seus discursos.

Perde assim a democracia seu significado junto às pessoas. Mais por sua ausência na sociedade do que pela referida verborragia, é verdade. Vejamos um exemplo. Certa vez, parado no sinaleiro, um motorista encontra um vendedor de chocolates, trabalhador informal. Puxa papo com ele. Pergunta-lhe da vida, e o sujeito logo se põe a contar vantagens: de se trabalhar no centro da cidade, de se trabalhar ao ar livre, etc. A principal, evidentemente, é financeira: conta como seu trabalho, informal, lhe rende salário três vezes maior do que o formal, que fez antigamente. Diante disso, e da proximidade de se abrir o sinal verde, o motorista expressa a única ressalva que lhe resta na cabeça, acerca do trabalho do vendedor: “Mas e as tais vantagens da carteira assinada?”. O sujeito, então, resignado, abrindo os braços que carregam chocolates, responde: “Hoje em dia, meu caro, é muita democracia pra se ter as coisas direitinho...”

Disso, só posso depreender duas possibilidades: 1) a democracia inexiste em nossa sociedade, sendo portanto impalpável no cotidiano das pessoas, e o sujeito confundiu burocracia com democracia; ou 2) sim, a democracia existe, é sólida, bela e perfeita, viva Rio-2016 e abaixo esse tal vendedor de chocolates, que no fundo não passa de um monarquistazinho ordinário. Você que me lê, opta por 1 ou 2?

3 comentários:

Paula Kaufmann disse...

Pedrinho, meu caro, sempre que lembro de entrar no seu blog fico feliz só de saber que posso esperar por textos evidentemete bem escritos e, mais do que isso, por reflexões inteligentíssimas.
E Parabéns pro Ismo a Esmo que tá com cara de gente grande.

Aguiar disse...

Nunca antes na História desse país, tivemos tanta democracia (e tantos posts quase na mesma semana). Alguém poderia dizer que é o presente do país do futuro. Brindemos, pois. Não é todo dia que aprendemos a conjugar nosso tempo em - e com - tantos modos.

Daniel Serrano disse...

eu fico em dúvida, mas qualquer representante da elite racista brasileira optaria por votar em branco