19 de janeiro de 2010

São Paulo

Encarando a cidade frente a frente, posso ainda não ter visto o seu rosto; preconceituoso, posso também enxergar somente os seus defeitos, incutindo a mim mesmo uma capciosa cegueira urbana; vai ver, além disso, que o errado entre tantos milhões sou eu próprio, que inflo meu discurso com a aura da verdade, mas jamais deveria me aventurar em terras estranhas — passa-se, contudo, que há um ano vivo em São Paulo e não encontro meio de ver beleza na cidade.

Trânsito, buzinas, caos. Poluição, mau-humor, um antro tucano. Creio que ninguém veja beleza na cidade; somente com muito esforço se pode vê-la, romantizando a feiúra. Não sou eu, contudo, capaz de tal feito (talvez o sejam as músicas). Em São Paulo, vejo somente uma profunda feiúra; vejo uma cidade não estruturada, vivendo uma puberdade desordenada e infinda, que põe alguns a nadar em dinheiro e outros a nadar em enchentes; vejo a infelicidade, retratada nos rostos dos muitos que, para o ócio de poucos, trabalham, construindo a feia cidade da qual são reféns. Não gosto do mau-humor paulistano, da poluição da cidade, de seu transporte público; São Paulo, para mim, simboliza a injustiça.


Se, contudo, existe alguém capaz de embelezar a cidade, esse alguém é o próprio povo. Feio de doer (pois que é cheia de feiúra a exploração), somente daí é que acredito ser possível sair a beleza — quem se vê obrigado, diariamente, a pintar uma cidade diabólica pode, um dia, fazer uma pintura não tão feia.

9 de janeiro de 2010

O monarquista

Há palavras que são como moscas: basta uma boca se abrir que elas pulam para dentro. Logo em seguida (duvido que alguém tenha o hábito de comer moscas), são jogadas para fora. Democracia é uma delas. Vai sempre de encontro ao ouvido alheio, junto ao visco da retórica. Do progressista ao reacionário (um sincero e outro não), todos utilizam a palavrinha mágica para justificar suas posturas e enriquecer seus discursos.

Perde assim a democracia seu significado junto às pessoas. Mais por sua ausência na sociedade do que pela referida verborragia, é verdade. Vejamos um exemplo. Certa vez, parado no sinaleiro, um motorista encontra um vendedor de chocolates, trabalhador informal. Puxa papo com ele. Pergunta-lhe da vida, e o sujeito logo se põe a contar vantagens: de se trabalhar no centro da cidade, de se trabalhar ao ar livre, etc. A principal, evidentemente, é financeira: conta como seu trabalho, informal, lhe rende salário três vezes maior do que o formal, que fez antigamente. Diante disso, e da proximidade de se abrir o sinal verde, o motorista expressa a única ressalva que lhe resta na cabeça, acerca do trabalho do vendedor: “Mas e as tais vantagens da carteira assinada?”. O sujeito, então, resignado, abrindo os braços que carregam chocolates, responde: “Hoje em dia, meu caro, é muita democracia pra se ter as coisas direitinho...”

Disso, só posso depreender duas possibilidades: 1) a democracia inexiste em nossa sociedade, sendo portanto impalpável no cotidiano das pessoas, e o sujeito confundiu burocracia com democracia; ou 2) sim, a democracia existe, é sólida, bela e perfeita, viva Rio-2016 e abaixo esse tal vendedor de chocolates, que no fundo não passa de um monarquistazinho ordinário. Você que me lê, opta por 1 ou 2?

4 de janeiro de 2010

Novo

Os fiéis leitores deste blog notam a mudança: foi-se o tempo do verde-musgo, um tal amarelo-escuro deu-lhe um pé-na-bunda. Quase um ano e cinco meses depois de sua criação, o Ismo a esmo muda um pouco de cara. Agora, mais discreto, talvez. Mais bonito também, muitos podem achar. Diferente, penso eu, e isso já é muito bom. Agradeço a Daniel Serrano pela arte.




Já a música é de Paulo Leminski (gravada por Carlos Careqa e Zeca Baleiro). Vem como trilha sonora da mudança visual para que fique claro que não inauguro um novo blog. O amarelo toma o lugar do verde, uma foto dá lugar a outra e tantas outras mudanças acontecem para que a principal mudança nunca aconteça: a do espírito que caracteriza este blog, que será eternamente malabarista.

1 de janeiro de 2010

Olhos com ressaca

O dia que inaugura o ano tem sempre a proeza de ser o dia mais chato do ano. Não à toa passei o dia inteiro em busca de algum ismo para pôr nesse blog a esmo — em vão, até agora. Tive de buscar inspiração num dia semelhante ao de hoje: era domingo, a família se postava no sofá, entregue à fome perene que é trazida pelo tédio. Alguém, no intuito de impedir que se somasse um Fausto Silva ao quadro acachapante da família em tal tarde, sugeriu que assistíssemos à minissérie Capitu — excelente minissérie (já disponível em DVD) exibida pela abominável Rede Globo. Foi uma boa pedida.

Assim decorreu a tarde de minha família naquele dia: minissérie Capitu. Algo super cultural e atípico para um domingão, coisa para instigar a inveja de quem agora me lê. Acontece que os domingos, exiba-se o que se quiser na televisão, são inexoráveis. Assim como um 1º de janeiro, em hipótese alguma, nem mesmo por decreto presidencial ou obra divina, pode ter sol aberto, os domingos não podem deixar de ter aqueles que dormem no sofá, mesmo que aos ouvidos dorminhocos soem palavras machadianas. E assim dormiu meu pai, ignorando a minissérie que desconhecia.

Nisso, chego num ismo capaz de se colocar nessa postagem que finalmente está saindo: relativismo. É tudo uma questão de como se vê a coisa. Há gente que veja saúde e felicidade num ano-novo que, em minha opinião, se inaugura com ressaca e tédio. Há gente, também, que veja genialidade no romance Dom Casmurro, enquanto outros nem tanto. E não me refiro, aqui, ao descaso sonolento de meu pai, que despertou lá pelos últimos capítulos, querendo pragmaticamente desvendar o mistério sobre o possível adultério de Capitu. Refiro-me, sim, ao meu irmão mais novo, que, entrando na discussão familiar, lançou um novo olhar sobre a obra machadiana, de supetão. “Depois de ler o livro inteirinho”, indagou ele, “ninguém pode saber se Ezequiel é filho de Bentinho ou de Escobar?”. “Não”, unissonamente a família. “Pô, que lixo!”, disparou o moleque.