8 de dezembro de 2009

Milagre da multiplicação

Quando se chega, avista-se um deles, se muito. Acanhado como o tal a quem o dia não escolheu, põe-se paradinho em seu canto, fraco das esperanças. Não se posta assim para sempre, contudo. Logo, acima dele e de todos que pela calçada vão, o céu se fecha, a luz natural se escasseia e o dia torna-se fusco. Começa, então, o sujeito a mexer seus pauzinhos, armando pela calçada sua parafernália. É ainda solitário, de olhos opacos e de bolsos vazios, mas outro destino já vai se delineando. Simultaneamente à exibição do que põe sobre a barraca, sinto a primeira gota d’água cair em minha pele. Chuva, pouca, o suficiente para honrar o apelido citadino, e de imediato aparece o primeiro cliente. Os olhos, que eram opacos, brilham que só. Chegam o segundo, o terceiro, o quarto cliente, e os bolsos, que eram vazios, tornam-se cheios. Da garoa se faz o temporal (o que ainda não é o milagre), mas o quinto cliente não o escolhe. Escolhe a barraca do sujeito do lado, coitado. E o sexto a do lado do lado. E o sétimo a do lado do lado do lado. E o oitavo a do lado do lado do lado do lado, até o infinito. É fato, não tenho dúvidas: basta chover em São Paulo que se multiplicam os vendedores de guarda-chuvas.

3 comentários:

Aguiar disse...

Também Ismo a Esmo está de volta ao samba. Finalmente!

Aguiar disse...

Em tempo, o retorno não é à toa. De fato, a chuva foi recorde.

Daniel Serrano disse...

Finalmente mesmo!
Mas pelo menos voltou bem; cheguei a torcer pelo vendedor 1, coitado, mas acabou superado.