28 de outubro de 2009

De Maria



De costas apareceu Maria e vi que dava de coser; roupa das finas com linho bonito, daqueles que vemos na missa. Manga fechada no punho e gola cobrindo nuca, de frente virou Maria. Vi terço, vi patuá, vi que dava de rezar Maria, com as mãos pálidas juntas em frente à saia. Dois passos à frente deu Maria, e eu lá longe vendo a fumaça saindo pela janela. Apaguei o cigarro. Respeito, muito respeito tinha eu por Maria. Era moça bonita, das que não fazem coisa feia da boniteza. Era de família, muita família, irmã, irmão, pai, mãe e outros a compor um lar caloroso. Do fundo de seu aposento eu via coisas bonitas, a colcha rosa cosida por Maria e velas acesas aos entes queridos. Fumar eu não podia, sei que não podia, coisa profana, coisa fedida, coisa de não-Maria. E viu meu cigarro Maria, avançou dois passos em um deslizar de procissão. O que faria Maria eu não sabia, seus lábios fechados seguravam palavras; meus lábios abertos soltavam fumaça, fumaça que não podia sair. Mais adiante andou Maria, avançou feito animal e postou-se frente a mim. O terço, o patuá, a palavra de Deus, algo em mim seria despejado pela senhorita. “Eu mereço”, pensei, quando Maria em mim encostou. Bati as costas na parede. Maria me olhou, Maria me prensou, Maria ergueu a saia. Maria abriu os lábios e os meus se fecharam, com fumaça e saliva. Deixei de respirar, deixei de pensar, deixei ela vir — deixei vir Maria, de coser, de rezar, Maria de impecavelmente pecar.

3 comentários:

Aguiar disse...

Pedro,

As postagens se escasseiam (à maneira dos exemplos de sextas-feiras pela tarde), mas ficam cada vez melhores. O estilo - o seu -, sim senhor, tem aparecido. Além disso, bela seleção musical. Meus parabéns!

Anônimo disse...

PP,

Muito bom esse "Maria", bela escrita...

Parabéns,

seu pai

Anônimo disse...

Pedrinho!,

vim ao seu blog morrendo de curiosidade e resolvi escolher pelo título os posts a serem lidos. (É claro que a presença de uma música que acompanhasse o post contribuiu -muito!- para a escolha).

E, enfim, "De Maria" foi o primeiro.

Olha, eu garanto que o leitor desse conto é capaz de jurar de pés juntos que, de algum vão de porta ou beira de escada, também viu Maria e a silhueta discreta do homem que fumava.

Esse é um dos contos que pede pra ser contado, em voz alta. As palavras atravessam a boca de um jeito muito gostoso.

Me lembrei de duas coisas enquanto lia: da música do Chico "Olha Maria" - acho que não apenas pela coincidência do nome - e do conto do Machado "Missa do Galo".

Concluindo, fiquei muito orgulhosa! ("Puxa vida!, esse cara é meu amigo!" - ainda que eu só o conheça há umas 3 semanas. Mas isso não vem ao caso.)
E acho que são um tanto merecidos os elogios que os meninos te fizeram na sexta - e dos quais você ficou se esquivando.
Com razão.

Pronto.
Por hora, é isso.

Um beijo,
Clara.