29 de setembro de 2009

Croniquinha

Coloquei a Caras de lado. Levantei, fui em direção à atendente e lhe ofereci a mão, em aperto. Daí se iniciou minha irritação, pois me senti como se apertasse um sapo. Nunca gostei de pessoas que não apertam a mão direito. “É Melo com um ‘l’ ou com dois ‘ll’?”, perguntou. “Com um”, disse eu, sendo conduzido à sala de raio-x. A mulher era do tipo de gestos leves, das que mostram o caminho com movimentos de balé. Voz fraca e fina, e uma calma nipônica. Quando se tira raio-x da boca, não é bem o que se quer.

Entrei na sala. A tal pediu para que eu ficasse em postura ereta: “Isso, bem retinho”, e encostava a mão em minhas costas. Ajeitei a cabeça, posicionei as pernas e veio a máquina. Coloquei o queixo sobre uma placa metálica. Um tubo veio em direção da minha boca: “Isso, morde bem mordidinho, fica paradinho, é rapidinho”, e saiu da sala. Seus diminutivos em excesso me deram nos nervos e me senti um retardado dentro da sala, sozinho. Voltou. Não tinha dado certo, eu havia me mexido. A mulher teimou que se tratava de minha postura, e quis corrigi-la. Mal sabia ela que eu tremia era de raiva de seus diminutivos, de seus dedos finos, de sua voz de vendedora de lingerie. Ora, boa tiradora de raio-x deve ter cara de câncer!, pensava eu.

“Isso, bem retinho, mas sem tirar o pezinho do chão”. Obedeci. “Agora, abaixa um pouquinho mais a nuquinha”. Obedeci. “Volta o pezinho”, “vai o queixinho”, “olha o calcanhar”, “sem mexer a nuquinha”. Tive um estalo. Por mais irritado que estivesse, por mais atrasado e seduzido pela vontade berrar, eu era ainda lúcido o suficiente para lembrar do ditado: impossível assoviar e chupar cana ao mesmo tempo. Se eu tinha o queixo sobre uma base metálica, não conseguiria levar a testa à frente sem tirar o calcanhar do chão! Fuzilei-a com o olhar e, com a calma dos nervosos, disse: “Tá difícil”, dando a entender que a nuquinha não mexeria sem o pezinho.

A mulher saiu da sala. Pensei que havia ficado brava comigo, mas logo voltou. Finalmente disse que havia dado certo. Sorte dela, aliás. Mais um erro houvesse ocorrido, mais uma mexidinha eu houvesse dado, mais uma ordenzinha de postura da parte dela, e eu armava uma confusão. De verdade, com gritaria e tudo. Do jeitinho que aconteceu quando, em despedida, ela me estendeu a mesma mão mole e disse: “Obrigadinha”.

3 comentários:

Beatriz R. disse...

E ela ainda disse "obrigadinha"? HA HA

Marco Antônio de Araújo Bueno disse...

Bão nesses prosaicos descritivos do titibitate na área da saúde. Cultive essa pegada. Bão! (um contrapeso fônico, solidário)
Abração

Victória disse...

hahahahaha muito boa! dei muitas risadinhas agora!

beijinhos e um abraçinho!