6 de setembro de 2009

Blá blá blá

A escrita é outra conversa. Não tem metade do calor humano que tem a fala, é carente de sua espontaneidade bucal. É também diversa — e seus erros são carícias à diversidade —, mas sua originalidade é pensadamente produzida. Por isso é difícil eleger a mais bonita delas. Há os que prezam pela perfeição gramatical e os contrários à ideia. Há os que prezam pela reprodução da fala e os que valorizam um universo próprio.

Talvez me refira mais à literatura do que à escrita ordinária. Mais à escrita talhada do que ao bilhete e ao recado e à rasura cotidianos. Esses têm tanta espontaneidade quanto à fala. Mas faço a diferenciação para dizer o seguinte: se na escrita agimos muitas vezes de caso pensado, na fala devemos soltar a língua à revelia. Se na escrita perfeitamente utilizar a norma culta é uma opção legítima, forçá-la na fala talvez seja por demais artificial e desgostoso.

O bonito do falar é a peculiaridade genuína de cada pessoa. Não gosto dos que dialogam mais com o dicionário do que com o interlocutor humano. Belo é o português de quem nega o plural no substantivo, de quem engata uma palavra na outra e neologisa por fusão. Belo é o português de quem desconhece o dicionário, ironiza o preconceito da língua e fala o que sua terra ordena. Belo é o português gostoso de quem fala com a boca.

Um comentário:

Aguiar disse...

Algum desavisado, em rara oportunidade, ao passar por Ismo a esmo, diria: "Consulte o Aurélio!"
Talvez arrancasse risos da platéia. Eu estaria na primeira fila...(Você, mesmo com as concessões explícitas e implícitas - aqui chamadas 'blá blá blá' -, seria o maior entusiasta. Não restam dúvidas. A postura no papel é mesmo distinta daquela que assumimos no cotidiano vivido.)

Belo texto!
Parabéns pelo aniversário!