24 de agosto de 2009

Granma: “Um ano de revolução no Brasil”


Clarín: “Kirchner vai ao Brasil em homenagem a Ismo a esmo”


Berliner Zeitung: “Economia entra em recessão no aniversário de Ismo a esmo”


Diário de Coimbra: "Coimbra envia parabéns a Ismo a esmo"


The New York Times: “Obama diz: Yes, they can”


Corriere Della Sera: “Berlusconi proíbe Ismo a esmo na Itália”


Folha de S. Paulo: “Paulista pára e recebe milhares em homenagem a Ismo a esmo”


Jyllands-Posten: “Escandinávia em festa: parabéns, Ismo a esmo”


El País: “Gripe suína mata três em aniversário de Ismo a esmo”

17 de agosto de 2009



Foi nessa praça que um dia encontrei um velho. Estava sentado num banco coletivo, usava óculos e cruzava as pernas. Os braços mantinha abertos e sobre o encosto do banco, como quem abraça a pessoa que senta ao seu lado. Sentei. Puxei papo e o velho de súbito retirou seus óculos. Do fundo da cratera óssea, fixou com firmeza o seu olhar no meu e me disse: as aparências enganam. E sei bem da veracidade de sua afirmação. Outro dia estive nessa mesma praça e não mais encontrei o velho. De longe, vi em meio aos pássaros uma criança encantadora. Braços miúdos e duas maria-chiquinhas que cobriam as orelhas. Achei fascinante a cena. O branco da pele infantil contrastava com a escuridão das pombas, que se sentiam em vôo quando fitavam os olhos da pequenina. Não titubeei e bati uma foto. Seria a lembrança de um momento sublime, um ser humano em contato com a natureza, pela suavidade ingênua de uma criança. Foi quando a menininha se levantou. Esticou seus dois braços, como quem comemora um gol, e olhou às pombas ao seu redor. Surpreendendo-me, desceu as mãos com rapidez para soltar um grito gutural: “Sai daí, bando de pombas, sai que eu estou cagando!

9 de agosto de 2009

Caras Cartas III

Caro Paulo Salim Maluf,

Quem rouba na política — não há dicotomia, meu caro — mata.

Muito obrigado. Estou em casa nesse momento, escrevendo essa carta. Não fosse a avenida que o senhor inaugurou, as linhas de metrô e os túneis, não fossem todo o cimento e a argamassa que com labuta derramou sobre o próspero solo de São Paulo, eu não chegaria de meu serviço em tempo, para lhe escrever essas palavras. O senhor é do povo, Maluf.

E eu soube da última que lhe aprontou o Ministério Público de São Paulo. Ordenou que você devolvesse, para um tal cofre público, alguns milhões de reais que roubou por aí. Essa história de novo, não é mesmo? Já basta toda a ladainha que se ouve dia a dia, e ainda querem que o senhor devolva seu dinheiro? Só porque ele passeou por paraísos fiscais e fez turismo a dar com pau, até regressar ao seu bolso, como se fosse investimento na (sua) empresa Eucatex? Não entendo porque lhe recriminam. Tem tanto bandido solto por aí, meu caro, mexendo com dinheiro sujo, e quem lava o dinheiro é que é acusado?

Essa sociedade preza mesmo pela inversão de valores. Há trinta anos você mora na mesma casa, dorme com a mesma mulher e é fiel ao mesmo partido. Como se põe você em suspeita? Não entendo. Elegem o Kassab que — já diria a Marta — não é casado nem tem filhos, e enxotam o senhor para um carguinho de deputado federal. E ainda lhe chamam de ladrão! Isso é mesmo um disparate. Deve ser coisa do Quércia, que é um você mal-sucedido. Leve Leite para esse pessoal, meu caro, derrame o líquido sobre o corpo deles, lhes molhando as mãos. Isso resolverá tudo, acredito, e você bem entende desses programas sociais.

De minha parte, farei um ato público em defesa do senhor: Marcha da família, com Maluf, por Deus — não necessariamente nessa ordem. Só não sei se aglutino muita gente. Acontece que outro dia vi um presídio, caindo aos pedaços e abarrotado de pessoas. O negócio precisava de uma reforma. Ouvi falar que por lá todos são malufistas. Esperam que o senhor leve a eles dignidade, leve leite e COHAB, reformando inteiramente o prédio em que residem. Com excelente acabamento interno. E eu tenho certeza que o senhor não faltará com mais esse compromisso, que tem com o povo sofrido de São Paulo.

Pedro (essa assinatura não é minha).

8 de agosto de 2009

Caras Cartas II

Caro Danilo Gentili,

Com muita falsidade inicio essa carta, tenho de assumir. Chamar-lhe por “caro” é por demais uma desvergonha de minha parte, já que pretendo classificá-lo como um não-humano, ao longo desse escrito. Não tenho outra opção, entretanto. Essa seção chama-se Caras Cartas, e a desfaçatez, ademais, é a única maneira de falar sua língua. Sei que logra de sucesso atualmente, talvez encha seus bolsos com o salário que recebe, pelo programa que participa. Vejo-o na tevê, perambulando pelas ruas, correndo atrás de pessoas e lhes formulando perguntas, vestindo roupas compridas. E pretas. Talvez em luto a si próprio.

Talvez pela ironia que é vestir a cor que veste. Você é racista, sim, não devo postergar a escrita dessa frase. Racista, desde a unha do pé até o fio do cabelo, passando por toda sua pele. E o desígnio de piada que colocou em seu Twitter é razão para que seja processado, sem dúvidas. O racista é um transgressor da natureza humana.

O conjunto da obra, no que se inclui a carta que escreveu em autodefesa, é deplorável. A emenda saiu pior do que o soneto. Além do racismo, meu caro, nela você demonstra outros preconceitos que compõem seu repertório humorístico. Não assume o seu erro, do mesmo modo. Atropela a história, despreza a humanidade e abusa da falácia. Não pretendo, portanto, perder meu tempo com você. Que seja mesmo diminuta essa carta e que eu me abstenha de combater, um por um, os seus argumentos. De passagem, digo somente que você não pode — e muito me orgulha que você me ache chato — chamar um gay de veado, um gordo de baleia e um negro de macaco. Tampouco eu posso. Você é sem-graça, é tudo o que posso dizer. E daí o seu luto a si próprio.

Pedro.

6 de agosto de 2009

Fora Sarney


O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) esteve na Avenida Paulista, clamando pelo Fora Sarney. No dia 29 de junho e no dia 1º de agosto. No último ato realizado, eu era um dos sujeitos a entregar panfletos pela atabalhoada avenida, pedindo aos transeuntes para que abaixo-assinassem a petição pela saída de Sarney. Tentava conversar com as pessoas, sobretudo. Era difícil, a pressa é o cartão postal da Avenida Paulista. Combater o oligarca-corrupto (pleonasmo) é sempre algo que motiva as pessoas, contudo. Mesmo as que com rapidez passavam pela calçada apanhavam um panfleto, acenavam com a cabeça, diziam uma palavra ou outra. Havia alguns poucos capazes de parar e conversar, de fato, e alguns outros que aceitavam uma conversa em movimento, ritmada pelas passadas contra o tempo, que é dinheiro. Um sujeito mulato foi um dos que alguma atenção me deu, mesmo que breve em seu andar de quem corre. Foi incisivo. Nos poucos instantes em que consegui acompanhá-lo e dizer que pelo Fora Sarney estava ali, o tal logo chutou o pau da barraca: “Se o Sarney quiser ir pra para a casa do caraio, ele que vá!”. Confesso que fiquei meio sem reação, parado, olhando o sujeito a se distanciar rapidamente, como quem foge da casa do caraio. Vai ver que era um desiludido politicamente, isso é comum e o PSOL vai às ruas justamente para se mostrar como uma alternativa. Vai ver que era alguém com ódio sanguinário do senador Sarney, e que buscou o nome mais feio que tinha em seu vocabulário para mandá-lo à casa do vocábulo escolhido. Vai ver que era alguém com quem concordo. Concordo. Meu único medo é que a casa do caraio seja mesmo o senado brasileiro.