6 de julho de 2009

Depoimentos

1 - " Sucedeu assim, seu delegado: cheguei ao ponto como quem não quer nada. Acabara de conversar com um amigo meu, que é daqueles que coordenam obras, e de uma delas saía, caminhando tranquilamente. Carregava camiseta da Ponte Preta e calça jeans das desbotadas, donde, e do conjunto da obra — sem duplo sentido, é evidente —, deve o sujeito ter tirado suas conclusões perniciosas. Tinha cara dos que, em um ponto de ônibus, esperam o carro da esposa, e fez dilatar as pupilas quando viu a cor de minha pele. Desinibido, contudo, sentei ao seu lado. Com os olhos, furtivamente pesquei o que vinha escrito na folha que lia: Lênin, e me aventurei então em uma mentira, dizendo que o tal era defeituoso das pernas. Apesar do pesares, disse também que gostava do Lênin, o que deu motivo para que o sujeito, atrevido, dissesse que eu gostava de grandes figuras históricas. E eu lá gosto, seu delegado? Eu lá gosto dessas coisas, quiméricas e mortas, que com o tempo viram jogador do Palmeiras? Não pude tolerar: 'eu sou contra o poder', atinei de filhodaputa e, então, não nego, abri espaço para a filhadaputagem. "

2 - " Tinha acabado de sair do serviço, seu delegado. O uniforme já estava na mochila quando parei no ponto de ônibus. Ao meu lado, sentou um sujeito. Bisbilhotou um livro que eu levava em mãos e disparou que Lênin tinha pernas atrofiadas. Quis eu qualificar a afirmação como um boato, quando o sujeito, para minha surpresa, em lugar de reafirmar seu posicionamento, disse que gostava do Lênin. Fiquei então feliz. Em um ponto de ônibus, estava eu em frente a um socialista, o senhor mal dimensiona o que isso significa para mim. Pensei em chamar o sujeito para uma cerveja. Já que a revolução não poderia agendar, que mal haveria ali em marcar um boteco? Foi quando o tal retornou à fala: 'Gosto muito dessas coisas: Lênin, Hitler, Osama Bin Laden...' Caí do cavalo. Não era socialista, é evidente. Pensei então em xingá-lo, mas o laço afetivo, que com ele eu acabara de criar, me impediu. Sem graça, eu disse: 'Pois é, grandes figuras históricas...'. O sujeito, por sua vez, piscou o olho direito e apontou para o brasão do Corinthians, estampado em sua camiseta. Depois, apontou para o do São Paulo, estampado na minha, e disparou: 'Eu sou contra o poder'. Eu não pude me conter. "

2 comentários:

Aguiar disse...

O sujeito pode não ser letrado, mas sabe o que está em jogo na luta de classes e, como seu reflexo, no enfrentamento pelo poder. Pedro, mesmo que a contragosto, não pôde deixar de reconhecê-lo.

Daniel Serrano disse...

esse ficou muito bom mesmo. é um conto! salve-o