31 de julho de 2009

Inspiração

Arrisquei uma análise sobre o tema ‘inspiração’, em minha penúltima postagem. Não fui adiante, é evidente. Não estava suficientemente inspirado. Algum vestígio de inspiração eu deveria até ter — caso contrário seria incapaz de escrever uma frase sequer —, mas era tão ínfimo que fui incapaz de captá-lo em meu âmago e traduzi-lo para o papel.

Me ocorreu hoje a leitura de algumas palavras de Fernando Pessoa sobre o assunto, e por isso volto a tratar dele. Num dos fragmentos reunidos no livro “Heróstrato e a busca da imortalidade”, Pessoa diz: “(...)essa coisa peculiar chamada inspiração — um termo sem sentido e uma realidade.” E adiante arrisca uma definição, das mais abstratas, para o termo: “Não um lume que se eleva numa chama, mas um toro acendido com um lume exterior, que se torna seu — isto é a inspiração...”

Essa tentativa de definição do termo inspiração lembra-me uma pequena história, conhecida aqui por campinas. Passou-se em tempo antigo, à época do bom ensino público, numa das salas do Colégio Culto à Ciência. Lecionava nela a professora de português Quinita Sampaio, que certo dia solicitou aos estudantes redações com o tema “Inspiração”. E sucedeu à professora uma surpresa. Um de seus alunos, maroto, lhe entregou sua folha praticamente em branco. Em letras destacadas, escrevera somente duas palavras: “Sem inspiração”.

A nota atribuída a tal redação foi Dez. E muito me orgulho de ser neto dessa professora. A história que ela protagoniza é bela e bem define o termo “inspiração”. É uma definição em abstrato, é verdade, subjetiva e sublime. Não creio ser capaz, e nem devo traduzi-la nessa postagem — cabe à minha leitora e ao meu leitor tal papel. Digo somente ser uma definição quase perfeita, e por si só inspiradora — uma definição nota dez.

29 de julho de 2009

Sobre nomes

Talvez venha da infância minha mania de dizer mal os nomes. Quando pequenino, certa vez parei diante do jornal e, ao meu pai, li erradamente o nome de Regina Duarte, a atriz que dá medo: Regina Buarque, disse eu. Meu pai, ouvindo o erro, pedir para que eu lesse novamente o nome, que então pronunciei como Regina Buarte.

O caso acima é perdoável. Crianças costumam ser afobadas, não se concentram no que leem. Eu provavelmente prestava mais atenção no meu pai, enquanto lia, do que no próprio jornal. Ademais, na terceira tentativa, proferi com perfeição o nome da tal celebridade, o que fez de meu desempenho infantil até que razoável. O problema são os equívocos, em relação aos nomes, nos acompanharem até idade mais avançada. E isso aconteceu comigo. Não mais, é bem verdade, no caso da leitura — a ela, com o passar dos anos, passei a dar mais atenção —, mas sim com a audição, que tende cada vez mais a nos trair, com o passar dos mesmos anos.

Até pouco tempo atrás, ao ouvir o nome de Zeca Baleiro, por exemplo, jurava eu que se tratava de um artista chamado Zé Cabaleiro. Erro parecido cometia com Elba Ramalho. Pensava, na verdade, tratar-se de El Barramalho (talvez alguma espécie de vilão de filme americano, em lugar de cantora brasileira). Ney Latorraca, do mesmo modo, não escapou de minhas interpretações bizarras. Por longos anos, tive-o por uma tal Neyla Torraca, trocando-lhe impiedosamente o gênero.

O último caso que me ocorreu foi o do apresentador João Palomino, da excelente ESPN Brasil. Até dias atrás, pensava eu se tratar do apresentador João Paulo Omino, e quebrei a cara lendo seu nome. Mas esse equívoco, bem como o de minha leitura infantil de Regina Duarte, é perdoável, acredito. Afinal, convenhamos, Palomino não é lá sobrenome de se ter...

23 de julho de 2009

Indisposto

Vêm as férias e, com ela, minha dificuldade para escrever no blog. Enclausuro-me. Acordo cedo, faço algum exercício físico, e passo o resto do dia a ler ou a me distrair com inutilidades. Não saio às ruas, não apanho um ônibus ou um metrô, me furto de muitas conversas que poderia ter, e não tenho. Secam assim minhas fontes inspiradoras. Passo a marcar com xis o calendário, na parede do meu quarto, observando o fim dos meus dias de folga.

Eu sempre quis saber escrever sobre a falta de inspiração. Nunca consegui. Invejo-me dos poemas que versejam sobre o tema, os contos e romances que, com perfeição, traduzem a angústia do escritor que não consegue escrever. É bonito, é profundo, às vezes me identifico neles, mas não consigo discorrer sobre o assunto. Aliás, não sei como os grandes escritores conseguem. Quando se está inspirado, tem-se esquecida a sensação da não inspiração e, então, é impossível traduzi-la para o papel. Quando não se está inspirado, ora, simplesmente não se escreve. Daí advém o fato de, nessas férias, eu ter dificuldade de escrever até mesmo sobre a falta da escrita, a ausência da inspiração. E daí também minha delonga, nessa postagem, em busca de algo para escrever, para falar do porquê não escrevo. Definir a inspiração, de antemão lhes digo, leitoras e leitores, não saberei fazer, já me esqueço de como ela é. E para definir sua ausência, se querem saber, de uma vez por todas, digo que a falta de inspiração é assim como uma postagem mal feita, mal postada ou indisposta, em um blog a esmo.

10 de julho de 2009

Pés amputados

"Se você sentir que lhe faz bem escrever, escreva! Só um escritor é que pode avaliar como é bom criar uma história ou compor um poema!"

Entre dezembro de 2001 e janeiro de 2002, quando tinha eu modestos dez anos de idade, parti para a escrita de um romance. Na verdade, e menos pretensiosamente, pus-me a escrever uma história, em páginas e páginas de Word, prolongada. Lembro-me de que crescia em meu peito a sensação de ser um escritor talentoso, um prodígio. Quando sentava ao meu lado, no computador, meu irmão mais velho, e pedia notícias sobre o atual estágio do enredo, eu não titubeava com minha jactância: "chame o corpo de bombeiros, pois agora está fervendo essa história!".

Achava-me talentosíssimo. E de fato articulava bem as palavras, pecava somente na verossimilhança. O romance, que levava o título de "A Viagem", narrava a viagem de um grupo de irmãos, a pé, de São Paulo a Rondônia! E o ponto alto da história, o momento em que se fazia necessária a presença dos bombeiros, era quando um dos irmãos subia em um coqueiro. Subia, caía e sangrava, deixando lá em cima seus dois pés.

Mostrei a história ao meu pai. Ele caiu na risada ao ler o episódio do coqueiro, e eu me traumatizei frente ao seu desdém. Subitamente vi em mim um péssimo escritor, e por anos não peguei em uma caneta para escrever histórias novamente. Foi nessa época, no auge de minha depressão literária, que minha avó paterna me escreveu um bonito e-mail, elogiando o romance que eu escrevera e me motivando a continuar com a escrita.

"A Viagem"

Aqui, vê-se a importância desse blog. Não há como negar que, após o trauma que tive, por aqui dou novamente vazão à minha vontade de escrever. Dessa vez, é bem verdade, com consciência de meus limites, me apegando à verossimilhança. E quando esse blog tiver leitores em Paris, Londres e Berlim, quando for referência para os mais diversos países latinoamericanos; o dia em que for adorado pelo povo da África, Ásia e Oceania, e, sobretudo, estiver na boca do povo brasileiro do Oiapoque ao Chuí, aí sim, hão de, mesmo que tardiamente, adular minhas talentosas palavras em "A Viagem", e traduzi-las para diversas línguas, e publicá-las em livros mundo afora, e me render homenagens e prêmios e etcéteras, como em um "arquivo confidencial" no Faustão.

6 de julho de 2009

Depoimentos

1 - " Sucedeu assim, seu delegado: cheguei ao ponto como quem não quer nada. Acabara de conversar com um amigo meu, que é daqueles que coordenam obras, e de uma delas saía, caminhando tranquilamente. Carregava camiseta da Ponte Preta e calça jeans das desbotadas, donde, e do conjunto da obra — sem duplo sentido, é evidente —, deve o sujeito ter tirado suas conclusões perniciosas. Tinha cara dos que, em um ponto de ônibus, esperam o carro da esposa, e fez dilatar as pupilas quando viu a cor de minha pele. Desinibido, contudo, sentei ao seu lado. Com os olhos, furtivamente pesquei o que vinha escrito na folha que lia: Lênin, e me aventurei então em uma mentira, dizendo que o tal era defeituoso das pernas. Apesar do pesares, disse também que gostava do Lênin, o que deu motivo para que o sujeito, atrevido, dissesse que eu gostava de grandes figuras históricas. E eu lá gosto, seu delegado? Eu lá gosto dessas coisas, quiméricas e mortas, que com o tempo viram jogador do Palmeiras? Não pude tolerar: 'eu sou contra o poder', atinei de filhodaputa e, então, não nego, abri espaço para a filhadaputagem. "

2 - " Tinha acabado de sair do serviço, seu delegado. O uniforme já estava na mochila quando parei no ponto de ônibus. Ao meu lado, sentou um sujeito. Bisbilhotou um livro que eu levava em mãos e disparou que Lênin tinha pernas atrofiadas. Quis eu qualificar a afirmação como um boato, quando o sujeito, para minha surpresa, em lugar de reafirmar seu posicionamento, disse que gostava do Lênin. Fiquei então feliz. Em um ponto de ônibus, estava eu em frente a um socialista, o senhor mal dimensiona o que isso significa para mim. Pensei em chamar o sujeito para uma cerveja. Já que a revolução não poderia agendar, que mal haveria ali em marcar um boteco? Foi quando o tal retornou à fala: 'Gosto muito dessas coisas: Lênin, Hitler, Osama Bin Laden...' Caí do cavalo. Não era socialista, é evidente. Pensei então em xingá-lo, mas o laço afetivo, que com ele eu acabara de criar, me impediu. Sem graça, eu disse: 'Pois é, grandes figuras históricas...'. O sujeito, por sua vez, piscou o olho direito e apontou para o brasão do Corinthians, estampado em sua camiseta. Depois, apontou para o do São Paulo, estampado na minha, e disparou: 'Eu sou contra o poder'. Eu não pude me conter. "