7 de junho de 2009

Chico e os presidentes

Não leia de relance o título desta postagem, você que me lê. Letras e palavras podem nos enganar quando passam rapidamente pelos olhos. Se o fizer, é bem capaz que suma com as três letras que no meio do título se postam e, assim, restando nele apenas duas palavras, venha a alterar a última delas: Chico Presidente. Não, não mesmo, não venho anunciar a candidatura de Chico Buarque à presidência da república. De gente que faz arte, Brasília já está cheia, assim como esse blog de trocadilhos. Pois vamos logo ao assunto.

Não deve ser nada fácil, a um presidente, ter Chico Buarque como opositor de seu governo. O artista, com suas palavras habilmente musicadas, tem o poder de, quando quiser, importunar as mais diversas pessoas. E a ironia de sua letra, por duas vezes na história (até onde tenho conhecimento), não perdoou presidentes da República Brasileira. Em 1974, com o pseudônimo de Julinho da Adelaide, sua vítima foi o General Ernesto Geisel. Este, à época, havia declarado repúdio a Chico Buarque, a despeito de sua filha, Amália Lucy, ter se declarado fã do cantor. Chico, pois, não perdoou, e, no refrão da música Jorge Maravilha, atinou:
Você não gosta de mim
Mas sua filha gosta
Em 1998, foi a vez de Fernando Henrique Cardoso. Na peleja pelo seu segundo mandato, o presidente, após longamente elogiar Caetano e Gil, classificou Chico Buarque como um “crítico repetitivo”. Chico, então, compôs um agradável sambinha, Injuriado:
Se eu só lhe fizesse o bem
Talvez fosse um vício a mais
Você me teria desprezo por fim
Porém não fui tão imprudente
E agora não há francamente
Motivo pra você me injuriar assim
Dinheiro não lhe emprestei
Favores nunca lhe fiz
Não alimentei o seu gênio ruim
Você nada está me devendo
Por isso, meu bem, não entendo
Por que anda agora falando de mim
Nunca é demais chamá-lo genial. O Chico, é claro. Mesmo sabendo que ela nega ter composto as músicas que citei para os presidentes. No caso de Geisel, alega ter composto pensando em policiais que, quando o apanhavam para a prestação de depoimentos na época da ditadura, acabavam por pedir a ele autógrafos para suas filhas. Já no caso de FHC, ironiza: “FHC, musa? Só pode ser piada”, e diz que jamais chamaria o ex-presidente de “meu bem”.



E até que faz sentido a explicação de Chico, neste último caso. Faz sentido, mas não me tira da cabeça que o samba é, sim, feito para Fernando Henrique Cardoso. Pois o genial artista, mais do que saber importunar um presidente com a sua sutil ironia, deve mesmo é saber negar a sua intenção de fazê-lo.

Um comentário:

Victória disse...

Devo dizer que amei a postagem?
:)

É claro que as letras são os famosos casos pensados, ele sabe que alguém vai sacar e já deixa um "meu bem" no ar... o Chico é o Chico meu bem...

Eu nunca tinha ouvido essa! E nem o comentário quanto ao FHC. Como assim, retendo informações agora Pedrinho? Socializa! Ainda bem que esse blog existe.

Obs: A voz do Chico parece pior nessa música. Mas ainda não se compara a minha - Ainda bem!

Bjs