20 de junho de 2009

"Viva a palavra! Ela não define apenas o objeto ou a sensação. Ela transforma, ela cria, ela inventa e colore a vida:
— Chuchu-beleza!"

Carlos Drummond de Andrade

Às vezes desdenho de algumas palavras que ouço e depois me arrependo. Toda palavra guarda em si a sua própria verdade, não existe nela erro ou acerto. Os manuais de gramática não são soberbos ao ponto de discriminar todas as palavras que, no cotidiano, roçam a língua das pessoas. Afinal, quem nasceu antes, a palavra ou o manual que lemos na escola? Dia desses, passei por um grande aprendizado lingüístico. Quando no supermercado, uma senhora de pele negra, daquelas que parecem achatadas com a idade, engordando para os lados, me interrompeu. Queria ela a ajuda de alguém ainda não achatado, um jovem que alcançasse um pacote de bolacha posto no topo das prateleiras do supermercado. Disse-me, portanto: “Por favor, pode me ajudar, você que tem mais estratura?”. Após lhe ceder ajuda, imediatamente saquei do bolso uma caneta e um papel, e anotei a palavra: estratura, pensando em ironizá-la, dia desses, em uma postagem a esmo. E vejam só, leitoras e leitores, o meu preconceito expresso no escorregar de minha esferográfica. Por que me coloquei a anotar a palavra com “s” e não com “x”? Por que, em lugar de nela enxergar somente um erro derivado da palavra “estatura”, não interpretei, na formulação da senhora negra, um maravilhoso neologismo? Ora, sim, um neologismo. E dos bonitos, formulado a partir de duas palavras. A tal mulher não quis somente atentar à minha altura e à palavra “estatura”. Querendo ela que eu lhe pegasse uma bolacha, lá em cima colocada, atentou também ao meu potencial de extração de pacotes de bolacha. Logo, estratura. Ou extratura. Palavra que designa o potencial de uma pessoa para, a partir de sua boa estatura, extrair objetos diversos. Diga-me, você que me lê, não é a mulher quase um Guimarães Rosa?

17 de junho de 2009

Teoria da relatividade

Cabe sempre a um primo a tarefa de distrair a criança. A mãe se envolve em assunto sério, dos que pequenos não podem ouvir, e o garoto, teimosamente enroscado nas suas pernas, tem de por algum atrativo ser levado para longe do aconchego materno. Coube-me tarefa dessas, ontem. Tive a ideia de levar meu primo, quatro, quase cinco anos de idade, para frente do monitor do computador. Ali, de imediato mostrei-lhe fotos de super-heróis, animais silvestres, e outras coisas que o pudessem reter sentado, em frente à tela e longe da conversa em que se metia sua mãe. E foi nessa situação que pude ouvir dele algumas pérolas, lhe arrancar algumas risadas e me divertir bastante.

Em certo momento, comecei a com ele falar sobre a família. Perguntei sobre seus irmãos, que na casa não estavam, sobre os tios, os demais primos, e sobre a avó, figura sagrada da família. Quando nesse assunto esbarrei, lembrei-me de um velho desejo meu: estar na pele de um garoto de cinco anos (estar novamente, digo eu, pois de minha época já não me lembro) para sentir o passar do tempo da maneira como sentem as crianças. Com 17 anos, eu, por exemplo, devo a ele parecer já um velho adulto, que dirá então de nossa avó, com 81. “Diego, quantos anos você acha que tem a vovó?”, perguntei. Meu primo fez cara de quem procura o anos mais grande que se pode existir no mundo e disparou: “Cinquenta”. Eu então disse: “Cinquenta, não. Mais, bem mais”, e ele, então, pensando ser certeiro: ”Cem”.

Poderia ainda contar às minhas leitoras e aos meus leitores a sua terceira resposta, quando lhe indiquei que a idade de nossa avó estava entre 50 e 100 anos (“28”, disse ele, o que pra mim foi chutar o pau da barraca). Mas quero mesmo é finalizar a postagem com outra anedota. Esta passada com meu irmão mais novo (agora, com 11 anos, à época, também com seus cinco) e minha avó paterna (é tempo de dizer que a tarefa de distrair crianças cabe a primos somente quando em substituição imediata de avós). Mantido ao colo da que tinha já mais de 70 anos, meu irmão quis perguntar a idade de nossa avó, que, com entonação e feição de brincadeira, disse: “20 anos”. O pequenino, por sua vez, com feição séria, de quem avalia coerentemente o que ouviu e o que observa, ponderou: “Olha, vó, não brinca, que eu vou acabar acreditando”.

15 de junho de 2009

Mais presidentes

Na postagem sobre ‘Chico e os presidentes’, escrevi sobre duas músicas do genial Chico Buarque: Jorge Maravilha e Injuriado, ambas supostamente escritas a dois presidentes da República. Escrevi também que, até onde tinha eu conhecimento de suas composições, somente nesses dois casos Chico, ironicamente, importunara presidentes.

Uma meia verdade. Tratando seus interlocurores com ironia e humor, fazendo-lhes críticas pessoais mais do que políticas, de fato conheço somente os dois casos. Mas há outras músicas suas que se dirigiram — ou supostamente se dirigiram — a presidentes da República. ‘Cálice’ e ‘Apesar de você’ são exemplos, dirigidas a Médici.

Há também uma terceira (ou quinta) música, esta referida ao já falecido Getúlio Vargas, sem tê-lo, entretanto, como interlocutor. Leva o nome de ‘Dr. Getúlio’, e foi gravada por Simone, em seu disco ‘Desejos’. Chico a compôs em parceria com Edu Lobo. Seu refrão:
Abram alas que Gegê vai passar
Olha a revolução da história
Abram alas pra Gegê desfilar
Na memória popular
O curioso dessa música, contudo, não é sua letra nem sua melodia, mas sim o que sua composição acarretou. Conta o livro "Tantas Palavras", de Humberto Werneck, que, no ano de 1983, letra e música da marchinha em homenagem a Getúlio estavam já prontas. Em certo dia, Chico ocupava-se somente em acertar o refrão, ainda pendente, da música, quando, em meio aos seus compassos, outro samba começou a lhe ocorrer. Com voz, violão e batuques na madeira, Chico perseguiu-o, até chegar ao refrão da que seria uma de suas mais célebres composições:
Ai que vida boa, ô-lerê
Ai que vida boa, ô-lará

10 de junho de 2009

09/06/09

Já que tempo não tenho, e muito atordoado estou para escrever um relato próprio, transcrevo aqui um e-mail a mim encaminhado. O relato é de um professor da USP, Prof. Dr. Pablo Ortellado, acerca do que aconteceu na universidade, ontem, o dia mais soturno da história da Universidade de São Paulo. As fotos foram por mim adicionadas.

Prezados colegas,
Eu nunca utilizei essa lista para outro propósito que não informes sobre o que acontece no Co (transmitindo as pautas antes da reunião e depois enviando relatos). Essa lista esteve desativada desde a última reunião do Co porque o servidor na qual ela estava instalada teve problemas e, com a greve, não podia ser reparado. Dada a urgência dos atuais acontecimentos, consegui resgatar os emails e criar uma lista emergencial em outro servidor. O que os senhores lerão abaixo é um relato em primeira pessoa de um docente que vivenciou os atos de violência que aconteram poucas horas atrás na cidade universitária (e que seguem, no momento em que lhes escrevo – acabo de escutar a explosão de uma bomba). Peço perdão pelo uso desta lista para esse propósito, mas tenho certeza que os senhores perceberão a gravidade do caso.


Hoje, as associações de funcionários, estudantes e professores haviam deliberado por uma manifestação em frente à reitoria. A manifestação, que eu presenciei, foi completamente pacífica. Depois, as organizações de funcionários e estudantes saíram em passeata para o portão 1 para repudiar a presença da polícia do campus. Embora a Adusp não tivesse aderido a essa manifestação, eu, individualmente, a acompanhei para presenciar os fatos que, a essa altura, já se anunciavam. Os estudantes e funcionários chegaram ao portão 1 e ficaram cara a cara com os policiais militares, na altura da avenida Alvarenga. Houve as palavras de ordem usuais dos sindicatos contra a presença da polícia e xingamentos mais ou menos espontâneos por parte dos manifestantes. Estimo cerca de 1200 pessoas nesta manifestação.

Nesta altura, saí da manifestação, porque se iniciava assembléia dos docentes da USP que seria realizada no prédio da História/ Geografia. No decorrer da assembléia, chegaram relatos que a tropa de choque havia agredido os estudantes e funcionários e que se iniciava um tumulto de grandes proporções. A assembléia foi suspensa e saímos para o estacionamento e descemos as escadas que dão para a avenida Luciano Gualberto para ver o que estava acontecendo. Quando chegamos na altura do gramado, havia uma multidão de centenas de pessoas, a maioria estudantes correndo e a tropa de choque avançando e lançando bombas de concusão (falsamente chamadas de "efeito moral" porque soltam estilhaços e machucam bastante) e de gás lacrimogêneo. A multidão subiu correndo até o prédio da História/ Geografia, onde a assembléia havia sido interrompida e começou a chover bombas no estacionamento e entrada do prédio (mais ou menos em frente à lanchonete e entrada das rampas). Sentimos um cheiro forte de gás lacrimogêneo e dezenas de nossos colegas começaram a passar mal devido aos efeitos do gás – lembro da professora Graziela, do professor Thomás, do professor Alessandro Soares, do professor Cogiolla, do professor Jorge Machado e da professora Lizete todos com os olhos inchados e vermelhos e tontos pelo efeito do gás. A multidão de cerca de 400 ou 500 pessoas ficou acuada neste edifício cercada pela polícia e 4 helicópteros. O clima era de pânico. Durante cerca de uma hora, pelo menos, se ouviu a explosão de bombas e o cheiro de gás invadia o prédio. Depois de uma tensão que parecia infinita, recebemos notícia que um pequeno grupo havia conseguido conversar com o chefe da tropa e persuadido de recuar. Neste momento, também, os estudantes no meio de um grande tumulto haviam conseguido fazer uma pequena assembléia de umas 200 pessoas (todas as outras dispersas e em pânico) e deliberado descer até o gramado (para fazer uma assembléia mais organizada). Neste momento, recebi notícia que meu colega Thomás Haddad havia descido até a reitoria para pedir bom senso ao chefe da tropa e foi recebido com gás de pimenta e passava muito mal. Ele estava na sede da Adusp se recuperando.

Durante a espera infinita no pátio da História, os relatos de agressões se multiplicavam. Escutei que a diretoria do Sintusp foi presa de maneira completamente arbitrária e vi vários estudantes que haviam sido espancados ou se machucado com as bombas de concusão (inclusive meu colega, professor Jorge Machado). Escutei relato de pelo menos três professores que tentaram mediar o conflito e foram agredidos. Na sede da Adusp, soube, por meio do relato de uma professora da TO que chegou cedo ao hospital que pelo menos dois estudantes e um funcionário haviam sido feridos. Dois colegas subiram lá agora há pouco (por volta das 7 e meia) e tiveram a entrada barrada – os seguranças não deixavam ninguém entrar e nenhum funcionário podia dar qualquer informação. Uma outra delegação de professores foi ao 93o DP para ver quantas pessoas haviam sido presas. A informação incompleta que recebo até agora é que dois funcionários do Sintusp foram presos – mas escutei relatos de primeira pessoa de que haveria mais presos.

A situação, agora, é de aparente tranquilidade. Há uma assembléia de professores que se reuniu novamente na História e estou indo para lá. A situação é gravíssima. Hoje me envergonho da nossa universidade ser dirigida por uma reitora que, alertada dos riscos (eu mesmo a alertei em reunião na última sexta-feira) , autorizou que essa barbárie acontecesse num campus universitário. Estou cercado de colegas que estão chocados com a omissão da reitora. Na minha opinião, se a comunidade acadêmica não se mobilizar diante desses fatos gravíssimos, que atentam contra o diálogo, o bom senso e a liberdade de pensamento e ação, não sei mais.

Por favor, se acharem necessário, reenviem esse relato a quem julgarem que é conveniente.

7 de junho de 2009

Chico e os presidentes

Não leia de relance o título desta postagem, você que me lê. Letras e palavras podem nos enganar quando passam rapidamente pelos olhos. Se o fizer, é bem capaz que suma com as três letras que no meio do título se postam e, assim, restando nele apenas duas palavras, venha a alterar a última delas: Chico Presidente. Não, não mesmo, não venho anunciar a candidatura de Chico Buarque à presidência da república. De gente que faz arte, Brasília já está cheia, assim como esse blog de trocadilhos. Pois vamos logo ao assunto.

Não deve ser nada fácil, a um presidente, ter Chico Buarque como opositor de seu governo. O artista, com suas palavras habilmente musicadas, tem o poder de, quando quiser, importunar as mais diversas pessoas. E a ironia de sua letra, por duas vezes na história (até onde tenho conhecimento), não perdoou presidentes da República Brasileira. Em 1974, com o pseudônimo de Julinho da Adelaide, sua vítima foi o General Ernesto Geisel. Este, à época, havia declarado repúdio a Chico Buarque, a despeito de sua filha, Amália Lucy, ter se declarado fã do cantor. Chico, pois, não perdoou, e, no refrão da música Jorge Maravilha, atinou:
Você não gosta de mim
Mas sua filha gosta
Em 1998, foi a vez de Fernando Henrique Cardoso. Na peleja pelo seu segundo mandato, o presidente, após longamente elogiar Caetano e Gil, classificou Chico Buarque como um “crítico repetitivo”. Chico, então, compôs um agradável sambinha, Injuriado:
Se eu só lhe fizesse o bem
Talvez fosse um vício a mais
Você me teria desprezo por fim
Porém não fui tão imprudente
E agora não há francamente
Motivo pra você me injuriar assim
Dinheiro não lhe emprestei
Favores nunca lhe fiz
Não alimentei o seu gênio ruim
Você nada está me devendo
Por isso, meu bem, não entendo
Por que anda agora falando de mim
Nunca é demais chamá-lo genial. O Chico, é claro. Mesmo sabendo que ela nega ter composto as músicas que citei para os presidentes. No caso de Geisel, alega ter composto pensando em policiais que, quando o apanhavam para a prestação de depoimentos na época da ditadura, acabavam por pedir a ele autógrafos para suas filhas. Já no caso de FHC, ironiza: “FHC, musa? Só pode ser piada”, e diz que jamais chamaria o ex-presidente de “meu bem”.



E até que faz sentido a explicação de Chico, neste último caso. Faz sentido, mas não me tira da cabeça que o samba é, sim, feito para Fernando Henrique Cardoso. Pois o genial artista, mais do que saber importunar um presidente com a sua sutil ironia, deve mesmo é saber negar a sua intenção de fazê-lo.

5 de junho de 2009

"O ensino da leitura e da escrita da palavra a que falte o exercício crítico da leitura ou releitura do mundo é, científica, política e pedagogicamente, capenga"

Paulo Freire

A Universidade sempre foi o espaço da liberdade. Tanto para a produção de conhecimento quanto para a atuação política. Essa concepção existia até mesmo nos tempos da ditadura, quando grandes pensadores e militantes, perseguidos pelo regime militar, nas dependências da Universidade sentiam-se mais seguros do que externamente a ela.

E foi com muita tristeza que, nós, da Universidade de São Paulo, iniciamos a manhã desta segunda-feira. No dia 1º de junho de 2009, depois de um período de trinta anos sem que isso acontecesse, a Polícia Militar ocupou o campus do Butantã da Universidade, com mais de 150 homens e mulheres. Coube, então, aos professores, funcionários e estudantes da USP, o protesto. E, nisso, entra a foto que acima postei.

Em um dos mais tocantes atos políticos que já presenciei, sete professores da Universidade de São Paulo, na segunda-feira, transferiram suas aulas para frente da reitoria da Universidade. Esses sete — entre eles, Leonardo de Mello e Silva, meu professor de sociologia — não optaram simplesmente por paralisar suas aulas. Optaram, sim, por lecionar em frente ao prédio da reitoria, em frente aos policiais, que o ocupavam. Contrapuseram-se a fuzis, escudos e cassetetes, com a educação. Comprovaram, em um louvável gesto político, as palavras de Paulo Freire, em sua Pedagogia da Indignação: “A educação é sempre uma certa teoria de conhecimento posta em prática, é naturalmente política, tem que ver com a pureza, jamais com o puritanismo, e é em si uma experiência de boniteza”.

A polícia, entretanto, permanece ocupando a Universidade. E a mobilização para que a desmilitarização do campus aconteça, pois, aumenta. Os funcionários têm sua greve fortalecida, a despeito da presença policial com o intuito de enfraquecê-la. Atos de protesto e passeatas pela Universidade se multiplicam, e professores e estudantes deliberaram, também, nesta quinta-feira, em suas assembleias, a greve de suas categorias.