16 de maio de 2009

A bela palavra

Não me recordo exatamente da palavra que utilizou, tampouco posso reconstituir em mente a trajetória dos lábios daquele doutor. A palavra era bela, embora não soubesse eu o seu significado. Subiu ao palco, agarrou-se ao microfone e logo proferiu-a, é tudo que lembro, abstraí o restante de sua palestra. Passei a acompanhar suas mãos gesticulando, o movimento de seus olhos de acordo com a retórica, e somente. Nada ouvia. Esforçava-me mesmo para fixar, em meu vocabulário, o tal conjunto de sílabas que tão bem soara, arrancando risos da platéia sonolenta. Sopo... Sopi... Sopiráforo. Não, sopiráforo não. “Hoje o dia está sopiráforo” é frase das que não soam bem.

De que começava com “so” estou certo. E vinha depois a consoante “p”, mas agora me esqueço da vogal que a acompanhava. Seguia-se então a letra “r”, indubitavelmente, fazendo-se acompanhada de vogal com o agudo em cima: sopuróforo, algo do tipo. O deslizar de seus lábios, que ainda tenho em mente, não me compõe uma trajetória definida de sua dicção. Lembro-me somente do gingado de sua boca, a gangorra fonética que lhe fazia a proparoxítona. É insuficiente.

Devia eu ter anotado a tal palavra, muitos anotaram na platéia, pude perceber. Era ela das belas mesmo. Daquelas que poucos sabem o significado, mas das que fazem bem a um pai de família proferir à mesa de almoço. Faria bem a mim, da mesma maneira. Cantaria mulheres pronunciando-a, mas não a recordo...  Lembrei! Soporífero é a palavra! Agora mesmo pegarei o telefone, deslizarei o dedo por alguns dos números que tenho decorados e, ao ouvir alguma voz feminina, farei dela imediatamente uma apaixonada: “como és soporífera, minha bela”.

Um comentário:

Daniel Serrano disse...

Absolutamente soporífero.