6 de maio de 2009

Com a gripe

A velhinha mexia no interior de sua bolsa enquanto resmungava frases das quais eu pescava algumas palavras: “... México... oitenta... Brasil... jornal... mortes...”. Procurava ali seu lenço amarelo e, quando o achou, colocou-o imediatamente em frente à sua boca, da onde não mais o retirou. Falava bastante e, nos momentos de silêncio, dirigia a mim o olhar dos que querem ouvir algo. Eu tinha então de me manifestar: “Frio, não é mesmo?”, dizia coisas do tipo.

Encabulava-me por demais o suspeito lenço amarelo que ficava em frente à sua boca, ele nos dava ares de mexeriqueiros diante dos demais passageiros do ônibus. Quando pedi a ela que dali o retirasse, tive meu pedido negado. A senhorinha balançou o indicador em sinal de "não" e me disse "gripe" como justificativa.

E nesse exato momento tive um insight. Esta maldita senhora está com a gripe suína!, pensei. Maldita, maldita, maldita! Sentou ao meu lado, puxou assunto, me fez de fofoqueiro na frente de todo mundo e ainda vai me passar uma gripe suína! Por isso está com esse lenço maldito, para ver se disfarça, para ver se o vírus não sai por essa narina enorme. Mas ele sai, sim, ele sai! Ele sai e eu vou pegar a gripe suína hoje. Em um ônibus! Que eu a pegasse em um hospital, no México, na puta que o pariu, mas em um ônibus? Isso é jeito de se pegar uma gripe suína?

Um turbilhão de pensamentos se passou em minha mente. Sabendo que a velha os infectaria, era minha obrigação salvar os demais passageiros do ônibus. Era minha obrigação gritar que a velha tinha a gripe suína e enxotá-la dali. Queria também dizer umas verdades a ela. Dizer que aquilo não era idade para tal irresponsabilidade, para sair por aí espalhando gripe suína. Queria eu xingá-la, esganá-la, espremê-la até que de seu corpo saísse toda a gripe suína em estado líquido. “A senhora está com a gripe suína?!”, explodi.  

A velhinha olhou-me de esguelha e, cochichando, respondeu serenamente: “Não”. Na área de entrada do ônibus, apontou-me com discrição um sujeito de nariz vermelho. “Estou é preocupada com aquele homem ali, ele é que está com a gripe suína. Mas por esse lenço aqui, meu filho, gripe suína nenhuma passa. Eu sou esperta!”. E o tal sujeito espirrou.

Um comentário:

José Lima Jr. disse...

Grande Pedrão.

Haja lenço pra tanto espirro literário.
Você contamina com seu verbo e adoeço feliz.
Assim não escapo daquela su(p)ina internação da cultura.