27 de maio de 2009

Vírgula

Todos já ouvimos, lá em algum ano do primário, de alguma professora, a afirmação de que a vírgula existe para marcar a respiração de quem lê um texto. Todos já ouvimos, também, anos depois, de algum docente que se julgasse superior às tias do primário, a afirmação de que é bobagem essa tal história de respiração, já que a vírgula serve mesmo para organizar os elementos sintáticos das orações.

E serve para os dois fins, por que não? Para organizar os elementos sintáticos, sim, mas também para marcar o ritmo com que deve ser lido o texto que se escreve. Dia desses, conversava sobre isso com alguns amigos. Um deles fez questão de lembrar uma frase irônica e interessante de Mário Quintana:
"Os velhos, quanto mais velhos, mais vírgulas usam."
E eu gostei bastante da tal frase, ela faz sentido. Vejam, por exemplo, leitoras e leitores, um recado que recebi, via Orkut, de meu irmão mais novo, no mês de julho de 2007. À época, tinha ele seus recém-completos 9 anos de idade e queria, através do recado, informar-me (já que estava eu em viagem, na Holanda) de um jogo da seleção brasileira:
"Hoje tem brasil emmmmmmmmm mas é muito tarde para vc é as 21:45 horario de brasilia começa o jogo ai devera ser 2:45 da manha que vai começar o jogo e deve terminar com mais 60 vai dar 3:45 da manha ai e aqui 22:45 com mais 85 vai dar 5:10 da manha ai e aqui 24:10 da noite mas eu te aviso quando acabar o jogo ta pepis estou com muitas saudades biel"
Não há vírgulas! Não é de tirar o fôlego, literalmente? Quanta juventude! Alguém terá a ousadia de censurar tal recado, por puro e insano apego à famigerada 'norma culta'? Alguém terá a ousadia de não enxergar em tal recado uma profunda coerência? Ora, meu irmão escreveu sobre futebol exprimindo, ao seu leitor, o ritmo com que este deve ler suas palavras: o ritmo de um locutor de rádio, a narrar uma partida.

23 de maio de 2009

Cai, cai, cai...

Bem que deu uma vontadezinha de ver Yeda Crusius cair do palco, enquanto não cai mesmo é do governo: seria uma queda física como o prenúncio de uma queda política. Mas, já que tal deleite não tive, ao menos posso, do vídeo abaixo, guardar a imagem da governadora tentando se equilibrar em cima do palanque, que vai se rompendo. A imagem retrata o atual momento político no Rio Grande do Sul. 

No episódio do palanque, vale lembrar, a governadora se safou foi com ajuda de ontrem, de um tal policial militar. Mas, no episódio político que no sul se desenrola, se depender da juventude riograndense, ela não se safa, de maneira alguma, da queda. ('Não se safa, safada', soa bem dizer isso).



Entrem aqui, leitoras e leitores.

18 de maio de 2009

E o prêmio vai para...

Essa minha postagem muito bem se adequa à série “O Fim da Civilização Ocidental”, que meu leitor encontra no excelente blog de Bruno Ribeiro, jornalista de Campinas. Acontece que ontem, viajando de Campinas a São Paulo, recebi gratuitamente o jornal O Estado de São Paulo, e pude então lê-lo durante a viagem. Esbarrei, ali, em propaganda que bem cairia na série de Bruno, e que vou agora relatar.

Trata-se de propaganda da empresa publicitária de Roberto Justos e traz, em uma página inteira, pesquisas realizadas acerca da imagem do empresário. Pois bem, que meu leitor ponha aí todo o viés com que devem ter sido feitas as pesquisas. Mas tem-se, na pergunta sobre “Ídolos em Geral”, entre jovens de 15 a 19 anos, Roberto Justos como o quinto mais bem colocado no Brasil. Ayrton Senna é o primeirão, seguido de Kaká, Barack Obrama e Felipe Massa. Na sexta colocação, veja só que beleza, temos Jô Soares. E depois Brad Pitt!

A coisa piora. Quando a mesma pergunta é feita, mas excluindo-se os ídolos esportivos, Justos fica em segundo. Medalha de prata! E Obama leva o ouro! E Jô Soares pula pro bronze! Brad Pitt fica em quarto e, na quinta colocação — pasmem — surge William Bonner! Meu Deus! Chega a dar vontade de chorar. E tive de contemplar, ainda, o rosto de Justos, estampado na propaganda com aquela cara de super-empreendedor. Ele parece primo do Max Gehringer.

O informe publicitário indica: “Pesquisa Ibope/Troiano 2009. Jovens de 15 a 19 anos, ambos os sexos, classes ABC”.

16 de maio de 2009

A bela palavra

Não me recordo exatamente da palavra que utilizou, tampouco posso reconstituir em mente a trajetória dos lábios daquele doutor. A palavra era bela, embora não soubesse eu o seu significado. Subiu ao palco, agarrou-se ao microfone e logo proferiu-a, é tudo que lembro, abstraí o restante de sua palestra. Passei a acompanhar suas mãos gesticulando, o movimento de seus olhos de acordo com a retórica, e somente. Nada ouvia. Esforçava-me mesmo para fixar, em meu vocabulário, o tal conjunto de sílabas que tão bem soara, arrancando risos da platéia sonolenta. Sopo... Sopi... Sopiráforo. Não, sopiráforo não. “Hoje o dia está sopiráforo” é frase das que não soam bem.

De que começava com “so” estou certo. E vinha depois a consoante “p”, mas agora me esqueço da vogal que a acompanhava. Seguia-se então a letra “r”, indubitavelmente, fazendo-se acompanhada de vogal com o agudo em cima: sopuróforo, algo do tipo. O deslizar de seus lábios, que ainda tenho em mente, não me compõe uma trajetória definida de sua dicção. Lembro-me somente do gingado de sua boca, a gangorra fonética que lhe fazia a proparoxítona. É insuficiente.

Devia eu ter anotado a tal palavra, muitos anotaram na platéia, pude perceber. Era ela das belas mesmo. Daquelas que poucos sabem o significado, mas das que fazem bem a um pai de família proferir à mesa de almoço. Faria bem a mim, da mesma maneira. Cantaria mulheres pronunciando-a, mas não a recordo...  Lembrei! Soporífero é a palavra! Agora mesmo pegarei o telefone, deslizarei o dedo por alguns dos números que tenho decorados e, ao ouvir alguma voz feminina, farei dela imediatamente uma apaixonada: “como és soporífera, minha bela”.

12 de maio de 2009

a esmo

epicurismo estoicismo cristianismo funcionalismo cientificismo autoritarismo clientelismo fanatismo socialismo romantismo lirismo determinismo concretismo naturalismo cognitivismo catolicismo xintoísmo sadismo empirismo academicismo surrealismo abstracionismo nazismo mercantilismo turismo feudalismo colonialismo negativismo espiritualismo ceticismo dogmatismo relativismo pragmatismo humanismo idealismo individualismo coletivismo secularismo sectarismo reacionarismo utilitarismo perfeccionismo jornalismo coloquialismo canibalismo predatismo narcisismo sonambulismo charlatanismo terrorismo consumismo esoterismo agnosticismo expansionismo vulgarismo reducionismo humanitarismo paternalismo silogismo egoísmo analfabetismo homossexualismo sentimentalismo dadaísmo sexualismo extremismo satanismo liberalismo facismo parlamentarismo barbarismo niilismo histerismo psiquismo puritanismo amadorismo analogismo conformismo capitalismo abolicionismo absentismo fetichismo panteísmo judaísmo comunismo saudosismo empreendedorismo transcendentalismo aforismo alcoolismo futebolismo expressionismo nacionalismo altruísmo monetarismo trabalhismo racismo militarismo helenismo elitismo arcadismo partidarismo evolucionismo particularismo mazdeísmo tabagismo misticismo desportismo etnocentrismo pessimismo iluminismo historicismo enciclopedismo laicismo bucolismo racionalismo escapismo onirismo urbanismo caboclismo parnasianismo existencialismo sensacionalismo sindicalismo profissionalismo mutualismo pedantismo infantilismo universalismo estruturalismo caudilhismo probabilismo sinergismo ufanismo sionismo hedonismo corporativismo  imperialismo fundamentalismo constitucionalismo conservadorismo hinduísmo materialismo chauvinismo passadismo gerundismo cartismo provincianismo heroísmo organismo vegetarianismo neologismo pacifismo ateísmo fatalismo absolutismo monetarismo

9 de maio de 2009

Pode?

Tudo vale, até a Vale mudar de nome, em nome de alcunha que mais simpática seja: é o triplo implodido pelo quádruplo em letras, pelo dissilábico, pelo o que não deve ser privado e não querem que seja público: dá medo. Vale tudo, até partido trocar de nome, em nome de mentira que mais benquista seja: é o triplo em letras implodido pelo Democratas em nome, é o sofisma, é a patota em palavra como o contrário da prática: dá asco.

Na moda de troca de nome, vale o válido, e o Ismo a esmo entrou também. Na postagem que abaixo desta está, o título, que falava de ônibus, mudou-se após dia para gripe, o tempo convém: é esse autor falando do que quiçá sequer reparam, enquadrando palavras, esquartejando títulos e postando no blog: dá arte?

6 de maio de 2009

Com a gripe

A velhinha mexia no interior de sua bolsa enquanto resmungava frases das quais eu pescava algumas palavras: “... México... oitenta... Brasil... jornal... mortes...”. Procurava ali seu lenço amarelo e, quando o achou, colocou-o imediatamente em frente à sua boca, da onde não mais o retirou. Falava bastante e, nos momentos de silêncio, dirigia a mim o olhar dos que querem ouvir algo. Eu tinha então de me manifestar: “Frio, não é mesmo?”, dizia coisas do tipo.

Encabulava-me por demais o suspeito lenço amarelo que ficava em frente à sua boca, ele nos dava ares de mexeriqueiros diante dos demais passageiros do ônibus. Quando pedi a ela que dali o retirasse, tive meu pedido negado. A senhorinha balançou o indicador em sinal de "não" e me disse "gripe" como justificativa.

E nesse exato momento tive um insight. Esta maldita senhora está com a gripe suína!, pensei. Maldita, maldita, maldita! Sentou ao meu lado, puxou assunto, me fez de fofoqueiro na frente de todo mundo e ainda vai me passar uma gripe suína! Por isso está com esse lenço maldito, para ver se disfarça, para ver se o vírus não sai por essa narina enorme. Mas ele sai, sim, ele sai! Ele sai e eu vou pegar a gripe suína hoje. Em um ônibus! Que eu a pegasse em um hospital, no México, na puta que o pariu, mas em um ônibus? Isso é jeito de se pegar uma gripe suína?

Um turbilhão de pensamentos se passou em minha mente. Sabendo que a velha os infectaria, era minha obrigação salvar os demais passageiros do ônibus. Era minha obrigação gritar que a velha tinha a gripe suína e enxotá-la dali. Queria também dizer umas verdades a ela. Dizer que aquilo não era idade para tal irresponsabilidade, para sair por aí espalhando gripe suína. Queria eu xingá-la, esganá-la, espremê-la até que de seu corpo saísse toda a gripe suína em estado líquido. “A senhora está com a gripe suína?!”, explodi.  

A velhinha olhou-me de esguelha e, cochichando, respondeu serenamente: “Não”. Na área de entrada do ônibus, apontou-me com discrição um sujeito de nariz vermelho. “Estou é preocupada com aquele homem ali, ele é que está com a gripe suína. Mas por esse lenço aqui, meu filho, gripe suína nenhuma passa. Eu sou esperta!”. E o tal sujeito espirrou.