6 de abril de 2009

Próclise ou ênclise: eis a questão.

Provavelmente meu leitor não é lá muito exigente com os textos que escrevo, não deve se prender em pequenos “erros” de português nos quais às vezes escorrego, inevitavelmente. A mão desliza um pouco no teclado, o dedo toca uma letra indevida, esqueço de algum acento e temos, assim, uma postagem com alguns errinhos. Mas não são esses erros, os de digitação, que são corrigidos facilmente com uma boa releitura, a que quero me referir. Como sugere o título dessa postagem, o que mais me agoniza ao escrever por aqui são os pronomes oblíquos, a sua famigerada colocação.

Bom seria se escrever fosse tão fácil quanto falar. Para que uma frase qualquer saia pela boca, ninguém avalia previamente onde deve colocar um “me”, um “lhe”, um “nos” e os demais pronomes pessoais oblíquos átonos (haja fôlego, sim, para que se saia pela boca um nome quádruplo como esse). Mas, para que uma frase se faça escrita, o processo já é mais complicado, principalmente quando a norma culta nos orienta a usar a ênclise, a colocar o pronomezinho depois do verbo, ligando-o a este por um hífen. No dia-a-dia, ninguém usa tal colocação pronominal para conversar com os outros. Nenhum pai de família, à mesa do almoço, diz “passe-me o arroz” ao filho. Mas, até aí, se fôssemos aproximar tudo o que escrevemos à maneira como falamos, a escrita não seria a escrita, mas sim um registro de fala.

Aqui no blog, vivo em ritmo de gangorra. Em alguns dias, me convenço de que usar a ênclise é um excesso de formalidade que deve ser abandonado nos tempos atuais, e então não a utilizo. Em outros, seduzo-me por um escrever “certo” que, embora não usual, cismo em aplicar em minhas postagens. E assim dificilmente atinjo um padrão, o que por vezes penso ser o ideal. Mas, para além do confronto entre a formalidade e a língua falada cotidianamente por nós brasileiros, acredito — e buscarei escrever pautado nisso — que o que deve de fato ser priorizado, no momento da escolha da colocação pronominal, mais do que o padrão, é o ritmo. Não digo métrica, mas o ritmo. A maneira como as frases escorregam na leitura. Priorizando-o, excessivamente formal ou não, muitas vezes a ênclise (até mesmo a mesóclise) é bem-vinda, assim como uma próclise “mal-colocada”. O importante é que o texto seja gostoso de ler, que escorregue pelos lábios e pela mente do leitor, que flua naturalmente como flui um rio.

3 comentários:

Zé da Banca disse...

Pois é, Pedro! O uso correto dos pronomes, inclusive, torna a comunicação difícil. Onde o nosso Português é de fato carente, a reforma ortográfica não atuou.

O progresso da língua é acompanhar (dentro de alguns limites) aqueles que dela fazem uso!

Abordou muito bem o assunto.

Abraço do Zé!

Daniel Serrano disse...

dê-me um cigarro e eu te direi quem és.

Marco Antônio de Araújo Bueno disse...

Bonita e válida essa idéia. Mas não venha-me com algumas bizarrices, como questionar o encanto de uma bela mesóclise.Outrossim, dir-te-ei quem és.
Boa semana!