4 de abril de 2009

Grupo de Ação Comunitária

O menino era roliço. Gordinho mesmo, de estatura baixa, sorriso largo e perene, e de dois braços sempre abertos. Tenho saudades dele e não consigo lembrar o seu nome. Rafael, talvez.

Lembro-me de certa vez, caminhando do CECOIA até a quadra poliesportiva onde fazíamos esportes e brincadeiras com as crianças, do Rafael — assumo mesmo esse como seu nome — de mãos dadas comigo, puxando um assunto qualquer. Era o Corinthians que era melhor que o São Paulo, era o São Paulo que era melhor que o Corinthians, era a seleção brasileira, era o Ronaldinho, era gol e gol e “hoje vai sei futebol, né, tio?”, me disse ansioso o garoto. Colocava a pergunta sorrateiramente no meio da conversa para que eu, distraído, dissesse sim e depois não pudesse voltar atrás. “Não sei, não sei”, disse eu.

Em certa rua, o moleque apontou com o dedo um singelo terreno onde eram plantadas alfaces e outras verduras, e me disse: “Meu pai que planta isso, tio. Meu pai é horteiro”. Gostei da novidade e, interessado por ela, tentei imaginar o pai dele lá trabalhando, cultivando a alface para o sustento da família. Em mente ampliei a imagem do garoto, seu filho, e enxerguei ali na horta um adultão acriançado, uma esticadura de criança com um sorriso perene que os adultos não têm. Antes que ficasse totalmente confuso, voltei a puxar assunto com Rafael: “E você, Rafa, quer ser o que quando crescer?”. Ele então parou de andar, apertou mais minha mão e olhou para cima imaginando algo. Eu já enxergava sua esticadura trabalhando como bombeiro, policial, cientista maluco, jogador de futebol, astronauta e tudo mais o que crianças querem ser, em profissões exoticamente heroicas.

Tinha certeza de que o garoto optaria por alguma das alternativas, eu mesmo quisera ser bombeiro quando com cinco anos de idade. E a minha certeza só fez aumentar quando ele olhou para mim, arregalou os olhos na proporção de seu sorriso e preparou uma voz convicta. Uma voz firme, orgulhosa, de timbre heroico e profissional: “Ou médico...”, me respondeu, “ou horteiro”.

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São lembranças como essas que me fazem ter com muito carinho o Grupo de Ação Comunitária, o nosso GAC. Lembranças da convivência com crianças às quais nos apegávamos facilmente, do mesmo modo que elas a nós se apegavam. Tenho-o como um momento singular em minha vida, no qual passei a compreender melhor a dura realidade de nosso mundo através de vozes suaves e finas de crianças. O GAC faz alimentar em seus integrantes, na mesma medida que um amor intenso pela vida, a indignação necessária frente às injustiças da sociedade, e projeta, pelas nossas mãos e as das crianças, resoluções para elas. Por fim, tenho certeza, o Grupo de Ação Comunitária semeia em todos os seus integrantes um futuro especial. Um futuro em que possamos ser assim como uma esticadura do garoto Rafael. Não para ter seu corpo roliço ou sua profissão de médico ou horteiro. Mas para ter seu sorriso perene.

Agradeço ao professor Hermes, Wilson e Irmão Marcelo, maravilhosos corações que coordenaram a ação do grupo enquanto dele participei. Agradeço, também, a todos os seus integrantes, os que lá estão ou já estiveram, e, por fim, desejo muita força e esperança ao projeto nesse ano de 2009 e sempre.

Um abraço do Pedrinho.

O texto acima escrevi para o site do GAC, que ainda está em construção. A sigla se refere ao Grupo de Ação Comunitária, composto por alunos do Colégio Notre Dame de Campinas, e do qual fiz parte. A ele me referi também em duas das primeiras postagens desse blog: aqui e aqui.

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