24 de abril de 2009

Caras Cartas I

Não posso por aqui lhe pedir a virtude da paciência, seria por demais subestimá-lo. Da mesma maneira não quero chamá-lo gênio, santo, ou por alguma qualificação vazia que recebem muitos de seus colegas de profissão. Tais denominações só fazem enviesar as pessoas a um status de sobre-humanidade que nada diz à arte; um patamar falsamente elevado sobre os mortais e que pode desabar ao mais simples balançar de pernas de quem sobre ele se coloca. Você é um artista, é tudo que afirmo. E ninguém mais humano é que um artista, nada mais de carne-e-osso se faz que a arte.

Não é de importância os outros dizerem que a paciência lhe falta, pois você deve tê-la justamente como quem não a tem. Quando penso em sua arte — como com os pés conduz a bola olhando sempre adiante, como é capaz de tocá-la sutil ou agressivamente sempre com a mesma maestria — penso que você, meu caro, deve tratar a paciência da mesma maneira como trata a bola em um campo de futebol. Deve aplicar nela uma firula marota e fazê-la anestesiar-se no tempo, assim como a bola que, a despeito de todo seu dinamismo, desconhece o que seja noventa minutos. Sua paciência escorregará pelos meses como o que desliza em um gramado verde. Como você, aliás, desliza ao fazer uma grande defesa.

É claro que ela (a paciência) se faz necessária no atual momento. Mas não da maneira como muitos dizem que você deve tê-la. Não como a têm comumente gênios e santos em seus momentos difíceis. A paciência não pode ser a você menos do que uma serva de seu talento, ela deve assistir à sua recuperação assim como à sua arte assistem milhares de torcedores brasileiros. E do mundo. Com a cabeça erguida, você conduzirá a paciência com os pés, a exemplo de como faz com a bola. E quando um atacante lhe trouxer um perigo qualquer, aplicará em seu dorso um toque sutil que, do contato com a grama, ver-se-á em uma parábola desafiadora a encobrir o oponente.

São seis meses, não é mesmo? Talvez menos? Talvez mais? Não importa. O futebol lhe espera com ansiedade, os torcedores também. A arte lhe espera onde você costumeiramente a faz, meu caro. E a paciência até o grande retorno não lhe será algo racional como muitos por aí querem. Será apenas uma linha tênue entre o profissionalismo e o êxtase sobre a qual você temporariamente se equilibrará como um equilibrista. Pois a arte lhe espera pelos gramados do mundo, mas você não deve esperar por ela. Como em um gol ou em um pênalti defendido, é você quem a faz. Sempre. Boa recuperação, caro Rogério Ceni.

Um torcedor.

Um comentário:

José Lima Jr. disse...

A estréia não podia ser mais acertada. Foi uma bela cobrança da falta descoberta. Foi uma bela defesa da idéia nascida.
Parabéns, Pedrão.