18 de março de 2009

Faixa de pedestres

O risco de ser atropelado é iminente, mas continuo a travessia da rua. A meta é, a cada passo, avançar uma faixa das sequentes pintadas para pedestres no asfalto. Os carros passam impiedosamente, fingindo sequer me ver, e sinto em meu corpo os deslocamentos de ar proporcionados por suas passagens. Os solavancos causam-me medo, mas prossigo em minha odisseia. Inclino levemente o tronco à frente, avanço mais um, dois passos, vou tomando conta da rua e, só então, os carros veem-se na obrigação de parar para esperar minha travessia. Não posso negar que os motoristas têm medo de me atropelar, mas posso dizer, sem dúvidas, que só manifestam seus medos, parando seus veículos, quando o atropelamento mostra-se de fato iminente.

Todo motorista é obrigado a parar diante das faixas de pedestres, mas quase nenhum cumpre essa obrigação. É claro que exagerei no relato que fiz acima. Tendo carinho por minha própria vida, não chego a ser tão audacioso quando forço a parada dos automóveis nas ruas. E quando ando a pé, também, nem sempre opto por fazer a travessia sobre as faixas de pedestres, o que é uma obrigação minha como transeunte. Assim, não chego a recriminar os motoristas que ainda não têm ainda o hábito de parar diante das faixas que não ficam em frente a sinaleiros.

Aliás, talvez devessem inverter o sentido em que são pintadas as faixas de pedestres. Paralelas ao sentido dos carros, talvez acentuem nos motoristas a vontade de continuar acelerando seus automóveis. Perpendiculares aos pedestres, por outro lado, podem desenvolver, nestes, o hábito perigoso em mim já desenvolvido. Desenvolver a irresistível vontade de ir caminhando sobre as faixas, vencendo-as uma a uma ignorando o perigo de atropelamento, até que se obriguem os motoristas a parar seus automóveis. Até que os obriguem, aliás, a cumprir com sua obrigação. E eles ainda nos xingam.

Xingam-nos, mas não nos chateiam. Aliás, a mim, os xingamentos estimulam uma travessia ainda mais calma. Diante dos carros parados, atravesso tranquilamente a rua, em passadas curtas e vagarosas, cantarolando músicas românticas e marcando o samba com batidas de mão na coxa. Independentemente de seus relógios ou compromissos, sei que, nesse momento, nenhum motorista terá coragem de me atropelar. Portanto, tripudio. Se eu for atropelado, aliás, será crime. E eu terei merecido.

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