14 de março de 2009

Assim fica melhor

Fui indo em direção ao banheiro em passos rápidos, esbarrando nas pessoas pelo meu caminho. A cantina estava realmente lotada, de pessoas e de mesas. Todo lugar pequeno e pouco arejado, aliás, tem a desagradável tendência de ter muitas mesas em si. Mesas coladas, mesas se esbarrando, ombros batendo uns aos outros, bolsas batendo em cabeças, copos sujando toalhas. Em frente ao banheiro, entretanto, não havia mesas. O prolongamento de parede, fazendo as vezes de um pilar, que separava o banheiro feminino do masculino, era o único pedaço de parede do local que não estava encoberto por mesas e pessoas. Mas um cartaz que tabelava preços de bebidas por lá estava pendurado.    

Li verticalmente: “Suco de abacaxi; Suco de Laranja; Refrigerante; Água de côco”. Parei de ler e pensei que um circunflexo ali furtivamente estava escrito: “côco” e percebi então que tenho tendência a simpatizar com algumas palavras escritas ou faladas “erradamente”. E não há como não simpatizar com o circunflexo em côco. À porta de um banheiro, então, ele assume papel singular e indispensável. O acento posta-se na primeira sílaba não para realmente nela postar-se, mas para mostrar, sim, a quem o lê, que em hipótese alguma posta-se na segunda. É côco, a fruta, e o circunflexo nesse caso é praticamente um acento diferencial. Um acento-diferencial-púdico.

Os erros não escritos, mas falados, igualmente me interessam. Sinto-me fascinado pelas pronúncias “erradas” de algumas palavras e penso sempre, ao ouvi-las, o quão charmosas são dessa maneira. Aproveitemos o mesmo ambiente de cantina em que eu estava. Debruçar-se sobre o balcão e pedir à atendente um “croquete” não é o mesmo que pedir a ela um “cocrete”. Dizer cocrete é infinitamente mais encantador e saboroso. Além do charme da palavra assim pronunciada, não há como negar que, frente a um croquete insosso, um cocrete é, no mínimo, muito mais bem temperado e cocrante.

E a reforma ortográfica não regulariza nenhuma dessas palavras tidas hoje como erradas. Mas deixemos assim mesmo, o que talvez seja melhor, já que o charme delas reside justamente em seus “erros”. O que falta mesmo à reforma, e bem diz isso o jornalista Juca Kfouri, é a criação do “acento da ironia” para indicar  o momento em que ela aparece em um texto. Com ele, nenhum escritor mais quebraria a cara tendo seu texto irônico lido ao pé-da-letra. Seria melhor assim?

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