22 de março de 2009

O Diário Mensal

Moro em um condomínio fechado. Em março de 2008, tivemos ― eu, meu irmão e sua namorada ― a ideia de criar um jornal para distribuir gratuitamente para os moradores daqui. À época, o único informativo que circulava em nosso condomínio era escrito por sua própria síndica e tinha conteúdo sonso. Éramos obrigados a ler alguns versos, escritos por ela, em que eram cantadas as belezas naturais de onde moramos. Coisas como belos pássaros migrando para nossos bosques verdejantes ou o florescimento da primavera; puro lirismo! 

No mês em que idealizamos o projeto do jornal, realizava-se por aqui a grande obra da história do condomínio: a troca dos alambrados, que o cercavam, por muros de concreto, sobre os quais se colocariam arames farpados. Não era o fato de morarmos dentro de um condomínio que tiraria de nós, os idealizadores do jornal, a sensatez de criticar o absurdo que é a proliferação de condomínios cidade afora, bem como o modo de vida que eles impelem aos seus moradores. Não nos conformávamos em perder nosso horizonte visual para um muro de concreto e, muito menos, em exibi-lo ao restante da cidade. Parecia-nos que, ao menos com os alambrados, a arrogância de um condômino se amenizava perante os demais habitantes da cidade.

Nosso objetivo nas matérias do jornal era produzir crítica através de humor. Um humor irônico, portanto. Misturávamos, para isso, a realidade à ficção, acerca dos principais acontecimentos do mês em nosso condomínio. Naquele mês de março, então, trouxemos na capa a matéria intitulada “Muro visa a combate à imigração ilegal” e, já ironizando a síndica, iniciamo-la com um singelo soneto. 

Ó belo muro,
nossa propriedade proteges!
Ergue-te cinza e duro
e afasta de cá os hereges!

Que tuas formosas curvas
de arame todo farpado
mantenham sempre turvas
as águas de nosso passado!

Que cerques a terra da liberdade!
Prende-nos aqui
e liberta o resto da cidade!

Em ti, muro, o horizonte some!
E por seres, assim, tão alto,
nosso baixo salário consomes. 

O Diário Mensal ― o nome de nosso jornal ― infelizmente não teve vida longa. Aliás, podemos dizer que sequer vida teve. A edição de março foi feita e impressa em diversas cópias que seriam distribuídas aos moradores. Quando as deixamos com os porteiros para tal tarefa, estes foram obrigados, antes de distribuir os exemplares, a mostrá-los para um dos administradores do condomínio. Este, por sua vez, proibiu a distribuição através da portaria e confiscou nossos exemplares, levando-os para a sua casa e não devolvendo até a presente data.

Quando disso soubemos, imediatamente nos revoltamos com a decisão. Escolhemos então distribuir os jornais pessoalmente, casa por casa, ninguém nos calaria. Mas o tempo foi passando... O tempo foi passando e a gente foi tendo preguiça e vergonha de pedir os exemplares ao administrador. Além disso, este alegava que já havia enfrentado muitos empecilhos para conseguir dar início à obra e que, naquele momento, com ela iniciando-se, o jornal poderia fomentar o surgimento de novos empecilhos. 

Este argumento, que não colava, foi aos poucos colando. O mês de abril vinha chegando e a nova edição não tinha nem indício de ser feita. Aliás, nem mesmo a primeira ainda fora entregue, e desistimos. Infelizmente. Sucumbimos ao reacionarismo dos que monopolizavam a administração de nosso condomínio e tinham seus interesses financeiros com a construção do muro. Não fomos um bom exemplo de como se deve agir, na sociedade, como um cidadão. Ao menos, tudo aconteceu mesmo dentro de um condomínio. Dentro do espaço em que as pessoas somente brincam de cidadania. 

18 de março de 2009

Faixa de pedestres

O risco de ser atropelado é iminente, mas continuo a travessia da rua. A meta é, a cada passo, avançar uma faixa das sequentes pintadas para pedestres no asfalto. Os carros passam impiedosamente, fingindo sequer me ver, e sinto em meu corpo os deslocamentos de ar proporcionados por suas passagens. Os solavancos causam-me medo, mas prossigo em minha odisseia. Inclino levemente o tronco à frente, avanço mais um, dois passos, vou tomando conta da rua e, só então, os carros veem-se na obrigação de parar para esperar minha travessia. Não posso negar que os motoristas têm medo de me atropelar, mas posso dizer, sem dúvidas, que só manifestam seus medos, parando seus veículos, quando o atropelamento mostra-se de fato iminente.

Todo motorista é obrigado a parar diante das faixas de pedestres, mas quase nenhum cumpre essa obrigação. É claro que exagerei no relato que fiz acima. Tendo carinho por minha própria vida, não chego a ser tão audacioso quando forço a parada dos automóveis nas ruas. E quando ando a pé, também, nem sempre opto por fazer a travessia sobre as faixas de pedestres, o que é uma obrigação minha como transeunte. Assim, não chego a recriminar os motoristas que ainda não têm ainda o hábito de parar diante das faixas que não ficam em frente a sinaleiros.

Aliás, talvez devessem inverter o sentido em que são pintadas as faixas de pedestres. Paralelas ao sentido dos carros, talvez acentuem nos motoristas a vontade de continuar acelerando seus automóveis. Perpendiculares aos pedestres, por outro lado, podem desenvolver, nestes, o hábito perigoso em mim já desenvolvido. Desenvolver a irresistível vontade de ir caminhando sobre as faixas, vencendo-as uma a uma ignorando o perigo de atropelamento, até que se obriguem os motoristas a parar seus automóveis. Até que os obriguem, aliás, a cumprir com sua obrigação. E eles ainda nos xingam.

Xingam-nos, mas não nos chateiam. Aliás, a mim, os xingamentos estimulam uma travessia ainda mais calma. Diante dos carros parados, atravesso tranquilamente a rua, em passadas curtas e vagarosas, cantarolando músicas românticas e marcando o samba com batidas de mão na coxa. Independentemente de seus relógios ou compromissos, sei que, nesse momento, nenhum motorista terá coragem de me atropelar. Portanto, tripudio. Se eu for atropelado, aliás, será crime. E eu terei merecido.

14 de março de 2009

Assim fica melhor

Fui indo em direção ao banheiro em passos rápidos, esbarrando nas pessoas pelo meu caminho. A cantina estava realmente lotada, de pessoas e de mesas. Todo lugar pequeno e pouco arejado, aliás, tem a desagradável tendência de ter muitas mesas em si. Mesas coladas, mesas se esbarrando, ombros batendo uns aos outros, bolsas batendo em cabeças, copos sujando toalhas. Em frente ao banheiro, entretanto, não havia mesas. O prolongamento de parede, fazendo as vezes de um pilar, que separava o banheiro feminino do masculino, era o único pedaço de parede do local que não estava encoberto por mesas e pessoas. Mas um cartaz que tabelava preços de bebidas por lá estava pendurado.    

Li verticalmente: “Suco de abacaxi; Suco de Laranja; Refrigerante; Água de côco”. Parei de ler e pensei que um circunflexo ali furtivamente estava escrito: “côco” e percebi então que tenho tendência a simpatizar com algumas palavras escritas ou faladas “erradamente”. E não há como não simpatizar com o circunflexo em côco. À porta de um banheiro, então, ele assume papel singular e indispensável. O acento posta-se na primeira sílaba não para realmente nela postar-se, mas para mostrar, sim, a quem o lê, que em hipótese alguma posta-se na segunda. É côco, a fruta, e o circunflexo nesse caso é praticamente um acento diferencial. Um acento-diferencial-púdico.

Os erros não escritos, mas falados, igualmente me interessam. Sinto-me fascinado pelas pronúncias “erradas” de algumas palavras e penso sempre, ao ouvi-las, o quão charmosas são dessa maneira. Aproveitemos o mesmo ambiente de cantina em que eu estava. Debruçar-se sobre o balcão e pedir à atendente um “croquete” não é o mesmo que pedir a ela um “cocrete”. Dizer cocrete é infinitamente mais encantador e saboroso. Além do charme da palavra assim pronunciada, não há como negar que, frente a um croquete insosso, um cocrete é, no mínimo, muito mais bem temperado e cocrante.

E a reforma ortográfica não regulariza nenhuma dessas palavras tidas hoje como erradas. Mas deixemos assim mesmo, o que talvez seja melhor, já que o charme delas reside justamente em seus “erros”. O que falta mesmo à reforma, e bem diz isso o jornalista Juca Kfouri, é a criação do “acento da ironia” para indicar  o momento em que ela aparece em um texto. Com ele, nenhum escritor mais quebraria a cara tendo seu texto irônico lido ao pé-da-letra. Seria melhor assim?

11 de março de 2009

Estarei presente

Estarei presente neste evento, e convido também meus leitores a comparecerem à Livraria Cultura no tal dia. Estarei presente também, mais presente, eu digo, neste blog, do qual me distancio por alguns dias - por motivo de força maior - sem esquecer de que volto, e volto logo a ele, como quem nunca se foi. E eu nunca me fui mesmo. 

Clique na foto postada, para facilitar sua leitura.