4 de fevereiro de 2009

O São Paulo perdeu

Assistindo a um telejornal, meu pai clamava por um copo d’água e atendê-lo ficava a cargo de mim ou de meu irmão. Como crianças, tínhamos a inabalável disposição em fazer favores aos nossos pais. Um, entretanto, por espontânea vontade, jamais buscaria o copo d’água sozinho, garantindo o ócio do outro e, por isso, por pura rivalidade, o caso resolvia-se através do par-ou-ímpar. Quem perdesse, buscaria o copo.

Nesses tempos idos, em disputas de par-ou-ímpar, assimilei a importância de se saber perder na vida. Apesar da indignação frente à derrota, encará-la com dignidade era primordial para a construção de meu caráter. Um fato ocorrido nesta semana me fez, entretanto, pensar em uma possibilidade quase inimaginável. Suponhamos que eu vencesse sucessivas disputas de par-ou-ímpar na minha infância, fosse frente ao meu irmão ou não. Suponhamos que por vinte e duas disputas consecutivas, em um período de cinco meses e dezesseis dias, eu não perdesse uma sequer. Suponhamos, enfim, que, após todo esse período, a derrota inesperadamente reaparecesse em minha vida, quebrando minha invencibilidade.  Como eu reagiria diante disso?

O fato que me inspirou a essa proposição é curioso. O São Paulo, meu time de futebol, após invencibilidade durante o longo período e número de partidas por mim referidos, perdeu, no último domingo, para o Santo André no Morumbi: 2 x 0. As reações à derrota me chamaram a atenção. Em casa, minha mãe, ao olhar a televisão e ver o São Paulo em desvantagem no placar, espantou-se e perguntou, incrédula: “O São Paulo?”. Sim, era o São Paulo que perdia.

Na imprensa, deram para investigar a preparação física dos jogadores do São Paulo e especular sobre a possibilidade do goleiro Rogério Ceni ter disputado a partida contundido. Algo de extraordinário haveria realmente de estar acontecendo. Resolveram, igualmente na imprensa, implicar com o habitual mau-humor de Muricy Ramalho, técnico da equipe, mesmo estando o seu comportamento rabugento presente também nas ocasiões de vitórias e empates. Jogadores, diretores e até mesmo o presidente do clube, foram obrigados a dar satisfações, na mídia, quanto ao tropeço da equipe. Instalou-se praticamente uma crise no clube.

Achei curiosas as reações à derrota pois, por mais que a imprensa insista em afirmar que a equipe do São Paulo não sabe perder, elas evidenciam um fato inusitado. Não é a equipe são-paulina que não sabe perder, acredito. São os espectadores da equipe são-paulina que desaprenderam a vê-la perder. Esses espectadores, entre eles a própria mídia, passam a buscar explicações para a derrota — nos raros casos em que ela acontece — em possíveis acontecimentos extraordinários, sendo que a derrota é, na verdade, algo natural para uma equipe de futebol.

Assim mesmo, não há como negar a iminente obrigatoriedade do São Paulo vencer a sua próxima partida. Caso contrário, os espectadores do espetáculo do futebol passarão a acreditar que as derrotas da equipe do Morumbi têm acontecido por decreto do presidente da república, corinthiano. Ou mesmo por uma medida-provisória.

2 comentários:

Daniel Serrano disse...

até porque se desconsiderarmos as últimas 59 derrotas do são paulo, o time está invicto a quase uma década.

s3rr@nense noticias disse...

vencytpedro vc só fala do são paulo pq não fala dá ponte a ponte não perde a três jogos po