26 de fevereiro de 2009

Paulo Freire

Tinha eu ainda idade-de-quarta-série quando minha mãe encasquetou de me estimular à leitura. O estímulo aos livros era de fato importante, mas sua investida não foi lá muito bem sucedida. Acontece que sou de família unida e razoavelmente grande e, como não poderia ser diferente numa família dessas, o recém-elaborado anseio de minha mãe rapidamente se irradiou aos demais familiares e, em um bem-sucedido telefone-sem-fio, chegou aos ouvidos de meu tio. Este, por sua vez, teve uma ideia: dar um livro de presente de aniversário ao Pedro.

Desse tio que muito me era — e ainda é — próximo, recebi então o livro O Senhor dos Anéis como presente de aniversário. Me senti orgulhoso, lembro até hoje da dedicatória por ele escrita na contracapa do livro, e me agradava empunhá-lo por aí, como se fosse já um leitor voraz. Mas o livro em si não chegou a me agradar. Tinha suas quase quatrocentas páginas, letras pequenas e enredo que achei chato, muito chato. Interrompi sua leitura na página vinte.

Somente há poucos anos, quando tinha já idade-de-ensino-médio, peguei gosto pela leitura. Aconteceu de cair em minhas mãos o livro Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire. Iniciei lendo-o descrente de meu próprio gosto pelos livros — já me conformava como um jovem que não o tinha — e acabei por ele me apaixonando. Não mais parei de ler. 

Tenho, assim, um certo carinho pela figura de Paulo Freire. E não posso deixar de expressar minha indignação frente a uma notícia que li na coluna “Rosa dos Ventos”, da revista Carta Capital. Por motivo de ações de integrantes do Ministério Público Estadual do Rio Grande do Sul, uma escola do Movimento Sem-Terra na cidade de Sarandi terá de ser fechada. Entre as acusações levadas em conta pelos promotores, há a de que o material da escola segue “a linha pedagógica de Paulo Freire”.

Indignado, encerro minha postagem com as palavras de quem tomei a liberdade de ter como padrinho de leitura, carinhosamente. As indignadas palavras de Paulo Freire em carta reunida no livro Pedagogia da Indignação: “A eles e elas, sem-terra, a seu inconformismo, à sua determinação de ajudar a democratização deste país devemos mais do às vezes podemos pensar. E que bom seria para a ampliação e consolidação de nossa democracia, sobretudo para sua autenticidade, se outras marchas se seguissem à sua. A marcha dos desempregados, dos injustiçados, dos que protestam contra a impunidade, dos que clamam contra a violência, contra a mentira e o desrespeito à coisa pública. A marcha dos sem-teto, dos sem-escola, dos sem-hospital, dos renegados. A marcha esperançosa dos que sabem que mudar é possível”.

O desenho acima leva a assinatura de seu autor.

2 comentários:

Fafa disse...

Pedro,
Adorei este texto e tds os outros .
Voce escreve mto bem ! Parabens !
bjocas

Marco Antônio de Araújo Bueno disse...

Pedro, o "Pedagogia do Oprimido" também foi, no meu caso, uma paixão instantânea. É o fundamento da filosofia que norteia a alfabetização de adultos via elementos de seu próprio entorno linguístico - escrever, p. ex., TIJOLO é mais construtivo (ai!)que copiar o "Vovô viu a vulva, quer dizer...a uva." Sem comentários quanto ao sectarismo oligofrênico que proíbe (e, então - propaga!)o nome da escola pela alusão ao método. Tive o privilégio de assistir aulas dele e também de privar com seu carisma impressionante em bancas de tese. Agora, cara, quanto ao "Senhor dos Anéis", seu ingrato, biltre, energúmeno, sacripanta e...ingrato - eu herrei feio! Tenho até sua carinha na memória, diante do catatau. Mas ia virar o "filme do ano" e eu não asserto bem, às vezes. Ah, serve pra cauçar pé de cama de calouro ingrato que, quando ainda imberbe, poderia ter indagado, sobre o livro: "Mas não tem de outra finura?" è que você lia meus tratados sócio-econômico-antropológico-psicanalíticos publicados na coluna e...opinava! Com "alguma dificuldade", é certo. Mas saiba que esse tio caiu (Ai-2!)em si; ou fora-de-si, numa sci-fi mais palatável e nos microcontos curtíssimos. Hoje, eu curto, você curte. O problema está com as cabeças curtas, tal como vemos no seu post. Aliás - oportuníssimo!
Abaixo o obscurantismo. Agora vou ler meu "Guerra e Paz", de um tal de Leon. Acho que vai virar filme!