14 de fevereiro de 2009

O zíper

Esperava pela abertura do portão de um prédio público em que prestaria concurso. O movimento em frente ao local era pequeno, apesar do dia bonito que fazia. Isso para mim evidenciava a pouca concorrência, algo muito bom. 

Eis que chegou um ônibus com placa de Jundiaí. Sentado à mureta em frente ao prédio, torci, por alguns instantes, para que dele descessem somente um ou dois concorrentes, ou quem sabe apenas uma mulher que traria um sanduíche à filha. Mas os que prestam concurso público não nasceram com sorte e, do ônibus, para minha decepção, dezenas de pessoas desceram com cara de azaradas. Passei a acompanhá-las com os olhos.

Foi nesse instante que reparei em uma mulher que aparentava ter já seus 34 anos de vida sem sorte. Como beleza não possuía, olhava-a mais para desenvolver minha autoconfiança para a prova, mas seus trejeitos também me chamaram a atenção. Provavelmente por estar bastante nervosa, do ônibus saiu em passos curtos e rápidos, que se assemelhavam a pequenos pulos. Simultaneamente, secava sua testa úmida, apalpava a coxa e desbravava sua bolsa, bastante grande, talvez em busca do RG. Com passos ligeiros pela calçada em frente ao prédio, cruzou caminho com um ambulante que vendia garrafas d’água. Passou reto por ele, mas voltou atrás, em atitude de pessoa ansiosa, e pediu uma água. Antes de entregá-la, o ambulante, com voz de quem pergunta “você não tem trocado?”, avisou à mulher: “Seu zíper está aberto”. Era o zíper de sua calça jeans.

Antes mesmo de saber de seu zíper aberto, já havia eu, confesso, duvidado de como uma pessoa conseguia prestar um concurso público com calça tamanhamente colada ao corpo. Agora, vestido em meu bermudão e sem cueca, previa também a dificuldade em se levantar o zíper da calça daquela mulher, o que seria quase como fechar novamente uma lata metálica de sardinha. 

Além do grude em que estava sua calça e do calor e sol que fazia no local, o zíper parecia não subir, por escorregar de suas mãos ou mesmo emperrar na calça. Minha previsão se confirmava e, por um instante, desejei levantar de meu lugar e aconselhá-la a acalmar-se, esquecendo que se travava de uma concorrente. Se respirasse fundo e desistisse de operar a subida do zíper em tempo menor do que o exigido por um emperrado, conseguiria em breve ocultar sua calcinha e livrar-se de mais constrangimento. Mas aquela mulher, que já era suficientemente nervosa para prestar um concurso público, afobava-se ainda mais por ter, no mesmo dia de sua prova, o zíper de sua calça aberto e emperrado, em frente a grande público. Já esquecida de sua água, começou a quicar em seu próprio lugar, encolhendo a barriga e puxando o zíper para cima com força. Mas ele teimava em não subir e a mulher, por sua vez, teimava em, cada vez mais, colar bem suas pernas uma à outra — o que fazia sua calça jeans assemelhar-se a um saco de batatas — e tentar puxar o zíper para cima. De tanto juntar as pernas uma à outra, encolher a barriga prendendo o ar e, para isso, morder o lábio inferior de sua boca; de tanto querer ocultar sua calcinha e, para isso, quicar, quicar, quicar em seu próprio lugar, encrespando ainda mais o seu cabelo, sua bolsa — o verdadeiro saco de batatas —, antes pendurada ao ombro, caiu no chão.  

A mulher finalmente parou, descabelada. Corou as bochechas, lacrimejou os olhos e, em frente a tantos concorrentes, acocorou-se para pegar sua bolsa. Pude prever, por sua feição desolada, que, naquele momento, a mulher seria capaz de desistir de sua prova, de seu emprego e voltar para sua casa. Teria eu uma concorrente a menos. Mas, ainda de cócoras, após devolver seu RG à bolsa, a mulher finalmente conseguiu fechar o seu zíper, e quem desistiu do concurso público fui eu.

2 comentários:

Victória disse...

"Aaah esse maldito fecho-Éclair..."

Beatriz. disse...

Nossa, cheguei a ficar com pena da tal mulher. Isso foi bem imprevisível.